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Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
By
Annapon ( escritora e blogueira )

Romance Mediúnico

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito. Esse é mai...

A Missão das Quatro Estações - Romance Mediúnico

A Missão das Quatro Estações

Sinopse:

Romance mediúnico transmitido pelo espírito de Frei Leonardo.

Bélgica, 1917.

A jovem Ananda é encontrada aos pés de um penhasco gravemente ferida. No hospital, todas as tentativas são feitas para salvar sua vida, porém, ela não resiste.

O Reverendo Nicos, amigo da família e pároco da cidade, ao receber a noticia do acidente, imediatamente vai ao hospital, lá permanecendo para apoiar os pais da jovem antes da constatação de sua morte.
Impaciente, o Reverendo pede ao médico para ver a menina e é atendido. Ao entrar na sala onde Ananda estava um fato surpreendente ocorre. O Reverendo viu, simultaneamente, o corpo de Ananda no leito, inerte, e seu espírito que com ele falou. Apavorado, o Reverendo volta correndo para a sala do médico e pede a ele que vá sem demora verificar o estado de saúde da menina.

Ao fazer isto, o médico constata e confirma sua morte.

A morte de Ananda choca a todos os habitantes daquela cidade. A polícia passa a investigar a morte de Ananda baseada nos depoimentos dos homens que tentaram salva-la levando-a ao hospital. Eles relataram ao delegado que Ananda segurava um chapéu nas mãos quando a encontraram e, que este chapéu, com certeza, pertencia a seu pai.
O pai de Ananda passa a ser então o principal suspeito pela morte da menina, mesmo porque, a hipótese de acidente não condizia com o conhecimento que Ananda tinha daquele local.

Quanto mais a polícia investigava, mais recaiam sobre o pai de Ananda as suspeitas e, diante de tais fatos, Henry, o pai, acaba por ser preso.

No plano espiritual, Ananda, que já estava esclarecida sobre a sua nova condição de vida, sofre com a prisão do pai, pois, crê na sua inocência e em seu amor por ela.
Diante da situação, Ananda busca ajuda e é atendida, porém, existe uma condição: Seu tempo em missão na Terra não poderia ultrapassar o de Quatro Estações, após este espaço de tempo, ela deveria retornar ao mundo dos espíritos, nada mais podendo fazer.

Ananda aceitou o desafio agradecida e mais dois espíritos amigos, a ela se juntam nesta missão; a Missão das Quatro Estações que tem por principal objetivo provar a inocência do pai de Ananda.

A medida em que o romance avança, os missionários das Quatro Estações reúnem forças junto aos espíritos encarnados, influenciando-os a colaborarem com a equipe.

Um dos fatos marcantes do romance é a atuação como advogada do pai de Ananda, da personagem Ava, pois, naquela época as mulheres davam inicio à sua emancipação e, advogadas eram poucas, sendo assim, Ava teve de enfrentar preconceitos dos mais diversos, inclusive o de seu próprio cliente.

O romance é envolvente, emocionante. Fala de justiça, fé, coragem e esperança.

Segredos da vida pessoal dos personagens são revelados de forma surpreendente, mas, que no fundo, são lições de vida. Lições de erros e acertos aos quais todos nós estamos sujeitos.

A missão das Quatro Estações passa a ser para o espírito de Ananda, um valioso aprendizado.

A colaboração que todos podemos prestar aos espíritos missionários, fica evidente neste romance que conta com alguns personagens auxiliares de grande valor para o mundo espiritual, por exemplo: o Reverendo Nicos e a negra Ambrozina, criada da advogada Ava e conhecedora de curas espirituais valiosíssimas.

O intercâmbio entre o mundo espiritual e o carnal é o tema principal deste romance de final emocionante.

As fraquezas dos seres humanos, bem como suas forças, são colocadas de forma a fazerem com que o leitor reflita sobre muitos assuntos.

A missão das Quatro Estações é uma lição de valores espirituais profundos que toca almas sensíveis que creem na continuidade da vida após a morte e na Justiça Divina acima de tudo.


Índice

─ Ananda
─ A visão do Reverendo
─ Elisa
─ A investigação
─ A prisão de Henry
─ Fatos Históricos
─ Fredy e Elisa
─ A missão das quatro estações
─ Ava
─ A morte de Fredy
─ O Despertar Espiritual de Fredy
─ A negra Ambrozina
─ A aflição de Henry
─ A Regressão de Ananda
─ Dúvidas do Reverendo Nicos
─ Uma prova
─ A regressão de Eliza
─ A confiança de Ava
─ Esclarecendo Fredy
─ O Mentor
─ O perdão de Ananda
─ O julgamento
─ Esclarecimentos

Ananda

Estou num hospital, tenho 14 anos. Chamo-me Ananda. Vejo meu corpo estendido no leito. Não entendo. Vejo médicos. O ano é 1917 e o país, Bélgica. Meus pais estão aflitos. Eu me sinto bem. Queria falar-lhes, mas eles não me ouvem. Não consigo entender o que está acontecendo. Sou duas agora. Uma está deitada, desacordada e, a outra, está bem, firme, aos seus pés. Sinto medo. Acho que o melhor a fazer é sentar-me aqui, ao lado de mim mesma.
Pela janela posso ver a neve caindo lá fora. Estamos no inverno. Lembro-me de ter nascido durante a primavera, quando o gelo derrete e a vida se renova iniciando mais um ciclo. Esta é uma lembrança agradável. Faz lembrar Deus. Quanta perfeição!
Sinto sono. Vou dormir um pouco.












                           




– Reverendo Nicos, Reverendo Nicos, espere, por favor, preciso falar-lhe!  – Gritava Rafael vendo que o Reverendo saía da pequena igreja.
– O que foi rapaz? O que aconteceu?
– Bom dia Reverendo, desculpe meus modos, é que o assunto é urgente. É sobre Ananda, Reverendo.
– O que houve com a menina? Vamos rapaz, fale logo.
– Uma tragédia, Senhor Reverendo, Ananda caiu no penhasco. Foi encontrada desmaiada e com ferimentos sérios pelo corpo. Temem por sua vida, está no hospital. Ouvi murmúrios de que seu pai seja o culpado pelo fato.
– Murmúrios? Vou agora mesmo ao hospital, desejo inteirar-me dos fatos. Muito obrigado meu filho por avisar-me.
– De nada, Senhor Reverendo, posso ir com o senhor?
– Não Rafael. Faça-me antes um favor. Vá até a feira, procure o verdureiro e apanhe com ele a encomenda que fiz. Ele lhe entregará alguns pacotes. Traga-os para a igreja. Pode fazer isso?
– Certamente, Reverendo, agora mesmo.
– Obrigado! Mais tarde conversaremos, está bem?
– Sim, claro! Até mais ver!
– Até, Rafael!

A notícia abalara o Reverendo Nicos que, apressado, dirigiu-se ao hospital para obter informações mais precisas sobre o estado de saúde de Ananda. A suspeita de que teria sido o pai a atirá-la do penhasco o preocupava 
– Sra. Margareth, Sr. Henry, soube há pouco o que se passou. Como está a menina?
– Pelo que os médicos dizem Senhor Reverendo, seu estado é grave. Está ainda desacordada. Respira com dificuldades e está sob efeito de remédios. É tudo o que sabemos.
– Será que posso vê-la? Onde está o médico?
– No final do corredor há uma sala à esquerda.  Lá está o médico.
– Vou até lá. Lembrem-se, amigos, tenham fé, orem, peçam ao Senhor pela menina e por vocês mesmos. Deus sempre sabe o que faz e nunca nos desampara. Mantenham-se em prece. É o correto a se fazer neste momento.
– Claro Reverendo, temos feito assim.
– Certo, volto logo.
O Doutor Hermann lia um artigo numa revista médica quando o Reverendo Nicos pediu permissão para entrar. Gentilmente o médico assentiu pedindo que tomasse um assento à sua frente.
– Doutor, como está Ananda?
– Mal Reverendo muito mal. Sofreu ferimentos gravíssimos. O que mais preocupa é a hemorragia interna.
– Podem salvá-la Doutor?
– Estamos tentando com os recursos dos quais dispomos, Reverendo.
– Entendo. Posso vê-la?
– Apenas de certa distância, se acredita ser realmente necessário.
– Acredito Doutor, por favor, permita que eu veja a menina.
– Muito bem, vamos lá.
– Obrigado, Doutor!




A VISÃO DO REVERENDO

Ao se aproximar do quarto onde Ananda estava, o Reverendo Nicos começou a se sentir emocionado. Era uma emoção desconhecida. Boa, porém, estranha. Observando o corpo inerte de Ananda, o Reverendo sentiu que a emoção dentro de si crescia. Seu carinho por ela era intenso o bastante para que ele, neste instante, dirigisse a Deus fervorosa prece.
O Doutor, ao ver o Reverendo de joelhos, em prece, sentiu-se também ele emocionado. Fechou seus olhos e  deixou-se  levar por aquele instante solidário.
– Reverendo Nicos? Chamou Ananda, sem que fosse ouvida.
– Não me ouve Reverendo?
O médico levantou-se, deixando que o Reverendo continuasse sua oração. Voltou para sua sala.
Ananda resolveu insistir em ser ouvida pelo Reverendo e ele, como que tocado por força muito estranha, abriu os olhos, vendo claramente a figura singela e doce de Ananda em pé, ao seu lado. Olhou para o leito onde estava seu corpo verificando que lá continuava. Estaria bem? Pensou assustado e surpreso o Reverendo. Tornou a fechar os olhos, rogava a Deus e a Jesus por auxílio quando ouviu a voz da menina que chamava por ele. Incrédulo, abriu os olhos e, sim, lá estava ela, viva e bem enquanto seu corpo, inerte, permanecia no leito.
O Reverendo mal podia acreditar no que via quando Ananda  falou:
– Reverendo, pode me ouvir?
– Sim, posso ouvi-la. Vejo-a também minha filha.
– Pode ver as duas?
– Sim, vejo as duas.
– Pode me dizer o que é que está acontecendo?
– Penso que sim. Sua alma liberou-se de seu corpo, como podemos ver.
– É certo. Mas então... então eu morri Reverendo?
– Vou chamar o médico.
O Reverendo Nicos dirigiu-se à sala do médico trêmulo e assustado.
– O que houve com o Senhor? Está pálido, sente-se bem?
– Na verdade estou um pouco tonto.
– Sente-se aqui. Vou examiná-lo.
– Não é preciso, logo vai passar. Prefiro que o Senhor vá verificar como está Ananda.
– Por que me pede isso Reverendo?
– Por favor, vamos?
– Sim, podemos ir se isso o tranquiliza.
– Obrigado.

Ao retornar ao quarto, o Reverendo não via mais Ananda em pé. Apenas o seu corpo jazia no leito.
– Como percebeu Reverendo?
– Desculpe, percebi o que?
– Sinto muito, Ananda deixou-nos.
– Oh meu pai! Exclamou o Reverendo com os olhos molhados pelas lágrimas que passaram a rolar livremente pelo seu rosto.
– Vou comunicar aos pais.
– Doutor, permite que seja eu a comunicá-los?
– Vamos os dois. É minha obrigação.
– Sim, vamos.
Antes de sair do quarto, o Reverendo olhou ao redor, procurando, sem encontrar, a Ananda viva, que há poucos minutos com ele falava.
Ao se aproximarem dos pais de Ananda levavam a triste notícia em seus semblantes. Nada precisaram dizer. A dor e a emoção envolveram todos.
A cidade de Antuérpia chorou a morte de Ananda. Foi assunto no porto, nas casas, nas ruas. Alguns diziam:
– Vejam como é irônica a vida, a Europa em guerra, muitos morrendo nela, mas, não é preciso estar tão exposto ao perigo para se morrer, basta o chamado de Deus e pronto, lá se vai a vida.
Os homens que encontraram Ananda caída próximo ao penhasco, imediatamente após levarem-na ao hospital, informaram à polícia sobre o ocorrido. Entregaram ao delegado um chapéu que a menina segurava nas mãos. Alguns dos homens conheciam aquele chapéu. Pertencia a Henry, diziam. Passaram todos a desconfiar do pai de Ananda. Diante disso, o delegado ordenou aos seus investigadores que começassem o trabalho de apuração dos fatos.
Margareth e Henry estavam inconsoláveis. Ananda era a única filha que Deus lhes dera e agora, agora...
No velório, quem via a tristeza de Henry custava a crer que ele poderia ter sido capaz de cometer tal crueldade. Teria a menina caído sozinha e, coincidentemente, ter nas mãos o chapéu do pai?
A dúvida estava lançada. A sorte de Henry também.

A aparição de Ananda intrigava o Reverendo Nicos. Ele estava confuso. Olhava o corpo frio e jovem da menina e, ao mesmo tempo, não podia esquecer que a vira cheia de vida, bem ao seu lado, separada do corpo. Estaria ele com algum problema?





ELIZA

O inverno rigoroso cobria a paisagem de espessa neve, o frio era intenso. Por essa razão, o sepultamento de Ananda deu-se de forma rápida. O atestado de óbito trazia como causa de sua morte forte hemorragia interna, causada por ferimentos múltiplos.
O que causava estranheza a todos era que Ananda conhecia como poucos a região na qual o penhasco se encontrava. Sua queda não conseguia ser bem digerida por ninguém, nem mesmo por seu pai.
O delegado Orestes exigiu que as investigações acerca da morte de Ananda tivessem início no dia imediato após o seu sepultamento. Desejava esclarecer a questão. Sendo também ele pai, sentiu-se tocado pela perda da menina em condições assim tão trágicas e duvidosas.

Eliza era uma mulher estranha. Vivia com seus dois irmãos, aos quais se dedicou, após a morte dos pais. Tivera, quando jovem, dois namorados. Era introvertida e raramente vista pelas ruas. De vez em quando procurava o Reverendo Nicos, a fim de confessar-se.
O segredo de sua vida, nunca revelado nem mesmo ao Reverendo, era sua paixão por Henry, que a correspondia. Eram amantes há anos. Iniciaram o romance antes mesmo do nascimento de Ananda.
Margareth nunca nem mesmo desconfiou. Fato que colocava em segurança o romance dos dois.

Henry e Margareth casaram-se por imposição de seus pais que, numa tarde, surpreenderam o casal de mãos dadas caminhando pelo bosque. Nada lhes foi perguntado. Um mês após aquela tarde estavam casados. Nada conheciam da vida, tampouco do amor, eram apenas bons amigos. O resultado, como não podia deixar de ser, foi desastroso. Ambos passaram a viver tristes, porém conformados com a sorte.

Eliza e Henry conheceram-se na igreja. Henry, casado com Margareth há apenas dois anos, sentiu por Eliza forte atração. Essa circunstância representava, afinal, a sonhada paixão juvenil que Eliza correspondeu imediatamente.
Por algum tempo, Eliza lutou contra essa paixão. Porém, um “belo dia” não mais pôde reprimir os seus sentimentos e se tornou amante de Henry. Mesmo sofrendo com a situação, rendeu-se.
Eliza e Henry passaram a viver intensamente aquele amor. A cada encontro sentiam-se revigorados e fortes para suportar com resignação o que a vida lhes reservara.

A razão de viver dos amantes passou a ser a certeza de terem um ao outro.
O nascimento de Ananda provocou ciúmes em Eliza que, com o tempo, conformou-se em dividir com mais uma pessoa a atenção de Henry.
Seus irmãos apiedavam-se dela, porém usufruíam ao máximo de seus cuidados, como se ela fosse a sua própria mãe. Andavam animados nos últimos dias. Estavam apaixonados por irmãs gêmeas que aceitaram namorá-los. Sentiam-se encantados com a coincidência e, por essa razão, uniram-se ainda mais. Passavam horas conversando sobre as moças.
Quando se lembravam de Eliza, discutiam o futuro dela. Como seria quando se casassem? Este era um problema que deixariam para resolver depois. No momento o que importava era o namoro, o amor!

Não só Eliza tinha um segredo, Margareth também tinha o seu. Um amor que as circunstâncias impediram e que o tempo tratou de sufocar. Vivia resignada.

Desde o dia da morte de Ananda, o Reverendo Nicos sentia que algo dentro dele havia se modificado. Aquela aparição! A voz da menina não lhe saía do pensamento. O que significava aquilo? Apesar de tudo, o Reverendo não ousou contar o que se passou a ninguém. Guardou para si o seu encontro com Ananda no momento da morte dela. O ocorrido o intrigava profundamente, chegando algumas vezes a tirar seu sono.





A INVESTIGAÇÃO

A investigação sobre a morte de Ananda tomava corpo. O delegado Orestes queria mesmo apurar os fatos. Como não poderia deixar de ser, visto que Ananda tinha nas mãos um chapéu por alguns homens reconhecido como sendo de seu pai.
Henry foi chamado a depor sem aviso prévio. A situação o constrangia, mesmo porque naquele dia tinha estado com Eliza. Pensando rápido, Henry sentiu que deveria dar à polícia a mesma versão que usara com Margareth: saíra um pouco para ler e caminhar.
– O senhor caminha na neve? – Perguntou o delegado –
– Sim senhor, caminho.                                                                        
Houve uma sucessão de perguntas e respostas até que o chapéu encontrado nas mãos de Ananda lhe foi apresentado.
– Reconhece este chapéu senhor?
Sem poder mentir, pois era homem honesto, Henry respondeu que sim. O chapéu lhe pertencia.
Henry não fazia ideia que, ao ser encontrada, Ananda tinha nas mãos aquele chapéu que há anos ele não usava.
– Pois muito bem. Temos aqui um problema senhor Henry. – Disse o delegado com ares de suspeita e indignação.
– Que problema senhor?
– Acontece que, este chapéu, pelo senhor identificado como de sua propriedade, foi encontrado nas mãos de sua filha no dia do acidente. O que pode nos dizer sobre isso, senhor Henry?
Henry empalideceu. Sentiu vertigem. Não entendeu.
– Como? O que está dizendo senhor delegado?
– Isso mesmo que acabou de ouvir. Este chapéu foi encontrado nas mãos de Ananda quando foi resgatada. Fui claro senhor Henry?
– Sim, foi claro, entendi, mas o senhor por acaso está me acusando pela morte de minha filha?
– Senhor Henry, por ora não acuso ninguém. Apenas estou apurando os fatos e, este, em particular, é muito significativo, não concorda?
– Devo concordar. Convém que lhe informe que há muito não uso este chapéu. Ele nunca foi de minha preferência e...
– Basta, por favor, senhor Henry, por hoje basta. Continuaremos amanhã. Devo advertir-lhe que não saia da cidade e que esteja aqui amanhã pela manhã. Caso contrário, será preso.
– Sim, entendo. Estarei aqui.

Ao chegar em casa, Henry encontrou a esposa preocupada e aflita. Relatou tudo o que se passara. Margareth recebeu as novas com surpresa. Não pôde compreender como tal suspeita poderia recair sobre um pai tão dedicado. Amoroso nunca fora, porém dedicado sim, tanto a ela quanto a filha. Todos sabiam disso, conheciam Henry. Todos na cidade sabiam que ele era boa pessoa.
– Por que aquele chapéu estava com Ananda?
– Não consigo entender o que fazia nossa menina com aquele chapéu. Margareth, esta é uma pergunta que não sei como responder. Você acredita em mim não é?
– Sim Henry, acredito. Vamos orar a Deus, ele nos auxiliará. Verá, este pesadelo vai passar. Vamos orar e pedir.
O casal ajoelhou-se em oração. Pediram auxílio e proteção. Sem que pudessem ver, deles aproximou-se um anjo bom, Ananda.

Veio a manhã e, com ela, a continuação do dissabor de Henry que, não obstante a dor que sentia pela perda da filha, ainda tinha de suportar a dúvida da polícia e das pessoas.
O interrogatório continuou por horas. Quando mais não podia, o delegado dispensou Henry advertindo-o que se mantivesse a disposição da justiça. Ao que Henry concordou.

Muitas pessoas foram ouvidas sobre o caso Ananda, mas uma em especial chamou a atenção do delegado.
Era uma velha senhora que residia nas imediações do penhasco. Em seu depoimento, fez o seguinte comentário:
– Naquele dia, o senhor Henry passou próximo à minha casa. O que me chamou a atenção não foi o fato de vê-lo passar por lá e sim seu semblante. Ele parecia muito aborrecido. Tinha o cenho fechado e caminhava a “passos duros”. Devo dizer que, passar próximo à minha casa era hábito do senhor Henry, mas a expressão de seu rosto, naquele dia, estava diferente. Não sei se ajudo ou atrapalho com este meu comentário senhor delegado.
– Por certo que ajuda senhora Manoela. Fique certa de que muito nos auxiliou.

Manoela saiu da delegacia sem saber se tinha feito a coisa certa. Por outro lado, sentia que devia sempre dizer a verdade, e o que havia dito correspondia a mais pura verdade. Pensando assim, tranquilizou-se.

O comentário de Manoela passou a intrigar ainda mais o delegado Orestes que pediu para que Henry se apresentasse na manhã seguinte.
O delegado iniciou a conversa com Henry comentando o depoimento de Manoela:
– O que me diz? Estava mesmo aborrecido naquele dia?
Henry sentindo-se “acuado”, não sabia o que dizer. Quando finalmente conseguiu falar, disse:
– O senhor nunca se aborrece? Nunca fica triste, deprimido?
– Lembro ao senhor que quem faz as perguntas aqui sou eu. De acordo?
– Sim, desculpe. Realmente naquele dia eu estava mesmo contrariado. Por questões particulares, íntimas. Isto não quer dizer que eu tenha matado a minha filha, não é mesmo senhor?
– Veremos. Aqui, diante de mim, todos se dizem inocentes, sempre. Por hoje é só, as recomendações são as mesmas. Trate de segui-las.

Henry sentia-se muito mal. Ser acusado pela morte da filha, a quem tanto amava, causava-lhe profunda tristeza e dor. Estava à beira do desespero. Lembrou-se de Eliza. Como seria bom se pudesse estar com ela, falar-lhe sobre suas dores. No momento não podia sequer pensar em vê-la. Os olhos da polícia e os da população estavam bem abertos, vigiando seus passos dia e noite. Saberia ela o que se passava com ele? De qualquer forma, Manoela tinha razão. No dia do acidente de Ananda, ele estava mesmo aborrecido e a causa de seu mal-estar era Eliza. Brigaram naquele dia. Henry afastou a lembrança da briga. Tinha muitos problemas no momento para pensar em mais um. Quando pudesse, veria Eliza.

Eliza sabia dos problemas que Henry vinha enfrentando. O comentário na cidade corria solto. Ao lembrar-se da briga que tiveram no dia do acidente, ela sentia raiva, porém, a falta dele era bem maior. Deu-se conta disso.
Seus irmãos perceberam que, nos últimos dias, Eliza estava mais irritada do que normalmente costumava estar. Eles nada sabiam sobre seu romance com Henry e se perguntavam: “O que estará acontecendo com ela?” “Será que é por causa do nosso namoro?” Não conseguindo chegar a uma conclusão, decidiram não mais pensar sobre o mau humor da irmã. Passaram a ignorá-la definitivamente.
A vida de Eliza estava realmente triste.





A PRISÃO DE HENRY

Margareth e Henry, além da saudade que sentiam da filha, da dor que sufocava seus corações, ainda tinham de enfrentar a desconfiança e até mesmo a mudança de atitude de alguns amigos para com eles. Pensavam que a vida estava sendo injusta demais. O que teriam feito para merecer tanta dor?
O único amigo que lhes restava era o Reverendo Nicos. Este, sempre que podia, ia vê-los. Levava sempre em seus lábios palavras de consolo e esperança.
O Reverendo sentia que Margareth precisava mais dele do que Henry. Porém, tratava-os com o mesmo carinho, com a mesma paciência e fraternidade. Aliás, o Reverendo tratava a todos assim. Era um religioso nato.

Margareth não podia deixar de lembrar, sempre que via o Reverendo que, um dia, no passado, amara-o. Este era seu segredo. No início fora paixão, depois a paixão deu lugar à admiração, ao respeito, ao carinho. Seu coração levaria este segredo ao túmulo, muito embora o Reverendo conhecesse bem o segredo de Margareth.

Os investigadores continuavam seu trabalho acerca da morte de Ananda. Os detalhes que surgiam comprometiam ainda mais Henry. O delegado, diante disso, decidiu que ouviria Henry mais uma vez. Ele teria que dizer por qual razão estava aborrecido no dia do acidente ou, então, decretaria a sua prisão temporária. E assim foi.
Pego de surpresa, Henry, não revelou o seu real motivo e, não tendo preparado nada para dizer, simplesmente calou.
– E então? – Perguntou, desconfiado, o delegado.
– Nada tenho a dizer. Minha intimidade só a mim pertence. O senhor faça aquilo que julgar adequado.
– Nesse caso, considere-se preso senhor Henry, pelo menos até segunda ordem.
Nesse instante, Henry sentiu fugir-lhe o chão. Não podia acreditar que estava sendo preso por um crime que não havia cometido. Chorou lágrimas de dor, desespero, revolta.

Da espiritualidade, Ananda sentiu a dor de seu pai. Após o seu desencarne, ela levara pouco tempo para aceitar a sua nova vida. Algumas revelações já haviam lhe sido feitas, mas ainda estava em fase de adaptação. Seu espírito sofreu forte abalo ao sentir a dor do pai. Diante disso, procurou ajuda junto a seus orientadores. Depois de expor seus sentimentos, eles prometeram ajudá-la e assim o fizeram.
Concluíram, após análise de seu caso, que Ananda possuía merecimento suficiente para auxiliar o pai no plano material. E poderia fazer mais, isto é, orientar todo aquele que lhe fosse caro.

Para tal autorização, colocaram apenas uma condição: seu tempo na Terra, em missão de auxílio, seria de quatro estações terrenas, não mais do que isso e, em sua justa medida, esgotado o tempo, ela deveria retornar à espiritualidade, onde tinha muito trabalho a fazer.

O parecer de seus orientadores fez o espírito de Ananda muito feliz. É claro que ela aceitava a condição! Agradecida e comovida, Ananda deu início à sua preparação para atuar na Terra. Seus colaboradores encarnados seriam o Reverendo Nicos, principal auxiliar, e mais aqueles que se fizessem necessários.
Espiritualmente, Ananda contaria com o auxílio de dois irmãos: Frida e Augustus. Ambos parentes seus durante algumas encarnações e espíritos habituados a atuar nesse tipo de missão.
Tudo quanto Ananda necessitava saber para que obtivesse sucesso havia lhe sido dito, com algumas exceções. Era necessário que ela exercitasse o senso de justiça, a compreensão, as leis de causa e efeito e da ação e reação. Bem como as leis de resgate de dívidas e cármicas. Tudo faria parte do aprendizado, de sua nova realidade.
O inverno estava quase no fim. Em breve, o gelo derreteria e a primavera chegaria trazendo temperaturas mais amenas, cores nos campos, ânimos novos, especialmente nas pessoas que, durante o inverno, viviam muito isoladas. Com a primavera, viria também Ananda, dando início à sua missão.

Assim que soube da prisão do marido, Margareth se sentiu ainda mais só. Ela não acreditava na culpa de Henry. O conhecia muito bem, estimava-o e respeitava-o. A tais sentimentos, ele fazia jus.
Henry sempre havia tratado Margareth de modo digno, nada lhe faltara, nem a ela, nem a filha. Ambas viviam tranquilamente a vida modesta, mas digna, que ele lhes oferecia.

De alguma forma, Margareth se sentia em falta com ele, pelo fato de terem tido só Ananda. Em seu íntimo, sabia que esse problema não era dela, pois... Afastou as lembranças. Deveria reunir forças para ajudar seu marido. Faria tudo o quanto pudesse para auxiliá-lo. Dali para adiante, o objetivo de sua vida seria amparar Henry. Amigo querido, companheiro.

 Ao ser informada sobre a prisão de Henry, Eliza mostrou-se indiferente, porém, dentro de seu peito, o coração batia descompassado. Sentiu aflição, solidão. Recolheu-se ao seu quarto por dias seguidos até que seus irmãos resolveram chamar o médico. Após examiná-la, nada pôde concluir. Aparentemente, sua saúde ia bem. Seu abatimento era falta de alimentação, no mais, nada grave, afirmou o médico.
Diante de tal informação, os irmãos de Eliza resolveram deixá-la como estava. Se desejasse comer, que se levantasse.
Frente a tamanho descaso, ela se sentiu abandonada. Pensou: dedicara a vida aqueles irmãos e a paga era essa.
Decidida, recompôs suas forças, levantou-se, alimentou-se, vestiu-se e fez um comunicado: daquele dia em diante, não mais cuidaria deles. Mudaria-se para uma pequena casa herdada por eles junto ao vale. Feito isso, começou a juntar seus pertences. Iria naquele mesmo dia.
Boquiabertos, os irmãos de Eliza nada entenderam ou disseram. Apenas olhavam-se e olhavam-na, sem reagir.
Findos seus preparativos, Eliza caminhou em direção à porta dizendo:
– Volto para buscar o resto. Adeus.
Ainda surpresos, “deram de ombros”. Um deles disse:
– Que vá, há dias não fazia mais nada mesmo. Vai ver queria uma desculpa para sair de casa. Que vá e não volte. Falta é que não fará.
O caçula notou no tom de voz do irmão, despeito e revolta. Nada disse, apenas pensou:
– O que estaria realmente acontecendo com Eliza? A decisão da irmã passou e incomodá-lo. Afinal, bem ou mal, ela havia cuidado deles. Passou a pensar nela de modo diferente.

Informado sobre a prisão de Henry, o Reverendo Nicos imediatamente quis vê-lo. Encontrou-o desolado.
– Henry meu irmão, que situação! Saiba antes de tudo que acredito em sua inocência e que envidarei todos os esforços para ajudá-lo.
– Obrigado Reverendo. Sua confiança faz com que a esperança volte a mim.
– Sim Henry, tenha esperança e confiança em Deus, ore, esqueça a revolta, ela é má conselheira, traz mais problemas.
– Não se revoltar é difícil. Sou inocente. Por Deus Reverendo, o que está acontecendo?
– A dúvida é erva daninha que se espalha com facilidade nos corações desprovidos de amor, meu caro. Basta que se levante, por boca desconhecida que seja, para que tudo de bom seja esquecido, posto em segundo plano.
– Devo concluir Reverendo que os homens são influenciáveis, que não criticam com apurado rigor o que lhes chega aos ouvidos.
– Sim irmão. Na maioria das vezes, é mesmo assim, infelizmente.
– Reverendo, não sei o que fazer. Não tenho dinheiro para custear um advogado.
– Pensaremos com calma. Estarei junto a Margareth, faremos tudo o que pudermos, confie.
– Margareth! Como está ela?
– Evidentemente triste, mas disposta a ajudá-lo. Confesso que admiro sua força, sua fé. Virá vê-lo pela manhã. Agradeça ao Pai pela mulher que tem.
– Sim, é uma grande amiga, irmã querida.
A declaração de Henry não deixou dúvidas ao Reverendo. Ele e a esposa mantinham uma relação de irmãos dentro de seu casamento. Sentiu-se um tanto triste por isso.
Despediu-se de Henry prometendo orações e ajuda.
Henry sentia-se melhor agora. Sentiu confiança nas palavras do Reverendo e conseguiu adormecer, apesar das precárias condições nas quais se encontrava.







                                        





FATOS HISTÓRICOS

A Europa no inicio do século XX vivia um tempo de mudanças. Muitos valores ainda eram ignorados, a exemplo do papel que a mulher desempenhava na sociedade.
Movimentos feministas erguiam-se, levantando bandeiras que falavam de liberdade de expressão, reconhecimento da mulher como pessoa e igualdade de condições.
As mulheres passaram a reconhecer a sua força e competência. Percebiam que seu trabalho era importante e que, assim como os homens, existiam e sabiam trabalhar. Obviamente este movimento causou incômodos, resistências, mas as mulheres, tomadas por forte determinação e coragem, passaram a lutar por seus direitos. Aos poucos, elas foram conquistando seu espaço.  Em 1917, Emily Murphy e Louise McKinney trabalharam juntas no processo que viria a estabelecer as leis de direitos da mulher dentro do casamento.
No mundo inteiro, o início do século XX foi marco decisivo para a emancipação da mulher. Algumas se tornaram advogadas, outras jornalistas e poucas, como as já mencionadas, ocupavam cargos realmente importantes.
No Canadá, a Senhora Emily Murphy defendia os direitos da mulher com pulso firme e também os direitos das crianças. Engajada no movimento feminista lutou pelo direito de voto da mulher, bem como pelo seu reconhecimento como cidadã. Foi a primeira mulher canadense a ocupar o cargo de juíza. Além dela, outras mulheres vinham ocupando cargos importantes antes reservados apenas aos homens.
Os homens relutavam em ceder seus postos. Com o tempo, perceberiam que esse era um processo irreversível. Um novo horizonte surgia. O papel feminino, na sociedade e nos lares, nunca mais seria o mesmo.
A evolução humana, embora algumas vezes pareça lenta, nunca deixa de acontecer. É lei Divina.
Podemos imaginar quanto preconceito estas mulheres pioneiras sofreram. Quantas dificuldades tiveram em provar sua capacidade. A luta certamente foi árdua.
Todo este processo trouxe ao mundo feminino uma série de mudanças, inclusive no seu vestuário que já passava a ser diferente.
Na Inglaterra, desde 1885, a mulher já contava com uma peça nova de roupa, o tailleur. Criado na época para a Princesa de Galles, esse traje passou a ser utilizado pelas mulheres do mundo inteiro. No início, o tailleur era composto de jaqueta, colete, calça e gravata, ou seja, um traje masculino para a mulher. Durante a primeira guerra mundial, seu criador, o inglês John Redfern, resolveu dar à sua nova coleção, ares mais delicados. Criou o tailleur composto por saia no lugar da calça.
O comprimento da saia era de um palmo abaixo dos joelhos e acompanhava botas de cano alto. Sucesso na ocasião. Sinônimo de elegância e bom gosto. Essa modernidade incomodava muito os conservadores e a igreja. Anos foram necessários para que essas conquistas fossem aceitas.
De uma forma muito resumida, se deu assim, o início da liberdade da mulher.
Por certo algumas confundiram seus papéis, mas isso não vem ao caso.

Muito antes do evento de emancipação da mulher, mais precisamente no ano de 1857, surgia em Paris, pelas mãos de Allan Kardec, o Espiritismo. Através de “O Livro dos Espíritos”, Kardec trouxe ao mundo uma nova visão dos ideais de Cristo.
Obviamente a Igreja Católica reagiu à Doutrina de forma agressiva. Perseguiu seus adeptos, queimou em praça pública os livros de Kardec e difamou o quanto pôde o Espiritismo. Apesar da fúria da Igreja Católica, a nova Doutrina fortificou-se e espalhou-se pelo mundo conquistando muitos adeptos e simpatizantes.
Podemos perceber que os acontecimentos citados fazem parte da evolução humana e que, na verdade, a evolução é como uma roda que gira sem parar, cabendo ao ser humano, fatalmente, acompanhá-la. É claro que, em paralelo aos eventos citados, outros tantos aconteciam. Sempre no sentido de esclarecer e auxiliar o ser humano a viver melhor, a descobrir maneiras e objetos que tornassem sua vida mais prática. Assim caminha a humanidade. Sempre descobrindo, experimentando.





FREDY E ELIZA

A situação de Henry se complicava. Quanto mais as investigações avançavam, mais o comprometiam.
O Reverendo Nicos e Margareth buscavam um advogado que fosse caridoso o suficiente para auxiliá-lo, uma vez que não dispunham de dinheiro. A tarefa estava difícil.
A Europa estava em guerra na época, pormenor que complicava ainda mais a situação de Henry. Os alemães haviam invadido a Bélgica e o saldo desta invasão era assustador. Em tempos de guerra tudo se complica e tumultua. Até mesmo leis deixam de ser cumpridas. O invasor subjuga o invadido depreciando o moral das pessoas. Com a guerra vem a fome, as doenças, as injustiças, o medo, o ódio e estabelece-se uma falta de amor generalizada. São preços altos demais que a humanidade ainda deverá pagar por algum tempo, de alguma forma.

Embora muito temerosa em permanecer só, Eliza continuava a viver na casa do vale. Quase não via ninguém. Por “sorte” sua, os alemães não se aproximaram daquelas paragens.
Durante a noite, Eliza dormia abraçada a uma velha arma que havia pertencido a seu pai. Essa foi a maneira que ela encontrou para viver um pouco mais tranquila.
Certa tarde seu irmão caçula foi visitá-la. O espanto de Eliza foi grande e sua alegria também, embora ela nada tenha demonstrado.

– Olá, como vai Eliza?
– Como pode ver, estou bem. E você? O que faz aqui?
– Na verdade vim para saber se está precisando de alguma coisa. Com esses alemães por aí, temo por você aqui sozinha.
– Pois volte de onde veio. Não preciso de nada e sei me defender.
– Quanta grosseria! Tenha uma boa tarde.
E dizendo isso, afastou-se rapidamente. Eliza não pôde ver que lágrimas corriam pela face de seu irmão enquanto este se afastava. Apenas sentiu curiosidade em saber qual era a real intenção dele ao ir vê-la.
Pelo caminho, o rapaz chorava. Sentia carinho pela irmã. Demorou muito tempo para perceber esse sentimento dentro de si, mas agora que o havia descoberto, queria compartilhá-lo com Eliza. Ela, no entanto, fora fria e distante para com ele.
Se o irmão mais velho soubesse de sua visita, certamente o repreenderia, pensou frustrado. E, ao regressar, trazia o semblante triste. Fato que chamou imediatamente a atenção do irmão que, preocupado, perguntou:
– O que foi que houve com você?
– Nada, deixe-me em paz.
 Simon estranhou muito a reação do irmão. Pensou em falar com ele mais tarde.
Ao cair da noite, o pensamento de Eliza voou até o irmão caçula: “Qual teria sido o motivo de sua visita?”. A dúvida a atormentou durante toda aquela noite até que finalmente adormeceu e teve um “sonho”. Falava com o irmão mais novo de uma forma muito carinhosa e próxima. Riam e continuavam a falar como se fossem velhos amigos, confidentes.
O sono de Eliza naquela noite foi bom. Realmente, na manhã seguinte, sentiu-se descansada como há muito não se sentia. Pensou em Fredy, seu irmão caçula e uma paz invadiu-a. Decidiu procurá-lo e desculpar-se pela grosseria da tarde anterior. Assim fez.
Ao vê-la aproximar-se do velho lar, Fredy sentiu uma emoção inexplicável. O ímpeto de abraçá-la foi tão forte que ele não pôde resistir, deixando os que assistiram à cena, estupefatos.
Eliza e Fredy abraçaram-se durante longo tempo. Após isso, entraram em casa e puseram-se a falar.
Simon, que assistira à cena, manteve-se distante e desconfiado.
– Fredy estaria ficando louco? – Pensou.
– Quanto tempo perdido minha irmã. – Disse Fredy à Eliza com carinho –
– Sinto o mesmo. Por que será que só agora descobrimos que nos queremos tão bem?
– Só Deus pode saber. Também fiz essa pergunta a mim mesmo várias vezes e cheguei à conclusão que isso não tem importância. O que importa é que, daqui para frente, seremos uma família de verdade.
– Mesmo que Simon não queira?
– Com o tempo ele também compreenderá que necessitamos uns dos outros e a nós se achegará.
–Vou rezar para que isso aconteça meu irmão.
Após longo tempo, Eliza decidiu voltar para casa. Simon não se aproximou dela em nenhum momento. No caminho de volta, Eliza repensava sua vida e chorou como há muito não chorava.





A MISSÃO DAS QUATRO ESTAÇÕES

Na prisão Henry sofria. A dificuldade em arranjar um advogado o estava apavorando. Pensava em Eliza, sentia saudade. Sabia que ela não poderia visitá-lo sob nenhum pretexto e dela também não tinha notícias.
No plano espiritual tudo já estava acertado. O trabalho de Ananda começaria em breve. Aliás, sem mesmo que ela soubesse, os amigos da espiritualidade já haviam iniciado o trabalho ao aproximarem Eliza do irmão. Tiveram lá os seus motivos.

A primavera chegou sem ser notada. A guerra cegava as pessoas. Não permitia que elas percebessem as sutilezas da vida.
Ananda e seus companheiros, Frida e Augustus, enfim estavam preparados para iniciar o trabalho.
Ao se aproximar da Terra, de sua cidade, Ananda sentiu forte emoção, compreendida por seus amigos que a auxiliaram a recuperar o equilíbrio.
Eles sabiam que Henry não era o responsável pelo “desencarne” de Ananda. Parte da missão consistia em descobrir o verdadeiro algoz da menina. Frida e Augustus sabiam quem fora o responsável. Ananda antes de saber necessitava conhecer algumas verdades por ela ignoradas. Esses fatos foram omitidos pela espiritualidade para que Ananda, por si só, descobrisse, compreendesse e, por fim, perdoasse. Seus companheiros saberiam como orientá-la.

O Reverendo Nicos e Margareth estavam quase perdendo as esperanças de encontrar um advogado para Henry quando o Reverendo soube que, na cidade, encontrava-se uma jovem de nome Ava, recém formada em Direito.
Ava estava em Antuérpia por conta de uma visita aos tios, que resultou em uma estada forçada, uma vez que, por causa da guerra, ninguém entrava e nem saía da cidade. Salvo em casos especiais.
Emocionado, o Reverendo rogou ao Pai e a Jesus que essa criatura o auxiliasse. 
Visitar o Senhor Ivan, tio de Ava, não seria difícil para o Reverendo, pois ele era frequentador assíduo da igreja e muito boa pessoa. Animado e esperançoso, o Reverendo foi visitá-lo sem perceber a presença iluminada de Ananda e seus amigos, que o acompanhavam, iniciando assim, a tarefa das quatro estações, todos eles, em equipe.
Pelo caminho, o Reverendo ia torcendo as mãos, seu coração batia forte e sua mente mantinha-se em oração. Bateu à porta de uma casa simples e bem cuidada. Para seu total espanto, foi recepcionado por uma mulher negra, impecavelmente uniformizada.
Tratou de refazer-se do susto e perguntou:
– É aqui que reside o Senhor Ivan?
– É sim senhor. Deseja vê-lo?
– Se possível, gostaria muito.
– Entre, Senhor padre. – E apontando uma cadeira posta na sala de entrada, convidou-o a sentar-se. Ao que o Reverendo aceitou sem questionar –
– Aguarde um pouco, vou chamar o Senhor Ivan.
– Muito obrigado.
O Reverendo estava surpreso demais em encontrar uma negra, nem mesmo conseguia alinhar o seu pensamento quando o Senhor Ivan veio ao seu encontro.
– Pois não? A que devo a honra de sua visita, Reverendo?
– Desculpe incomodá-lo. O meu assunto é muito sério e delicado, na verdade, preciso de sua ajuda.
– Venha comigo, Reverendo.
Assim dizendo, o Senhor Ivan conduziu o Reverendo Nicos ao seu gabinete particular.
– Sou todo ouvidos. Em que posso ajudá-lo, Reverendo?
– Bem Senhor Ivan, na verdade, não sei como começar.
– A igreja está em dificuldades financeiras?
– Não meu filho, neste sentido tudo está bem, graças a Deus.
– Reverendo, o Senhor está me assustando.
– Não precisa se assustar. Eu é que estou meio “sem jeito”.
– Pois então, fique à vontade. Está em casa, Reverendo.
– Obrigado, filho. Antes de começar, devo perguntar se o Senhor conhece o caso do Senhor Henry.
– Henry? O preso acusado de matar a filha?
– Sim, este mesmo. Vejo que conhece o caso.
– Conheço sim. Nesta cidade tudo se sabe, não é mesmo Reverendo?
O Reverendo notou uma “ponta” de ironia na afirmação de Ivan, mas, continuou:
– Senhor, o problema é que estou tentando auxiliar Henry. Sei que o pobre homem é inocente, que está preso injustamente. Desde que Henry foi preso, venho tentando conseguir um advogado que, por caridade, aceite defendê-lo em troca de honorários humildes.
– Veio até mim por causa da minha sobrinha Ava?
– Sim, na verdade, creio que ela é minha última esperança Senhor Ivan.
– Reverendo, sejamos sinceros, acha que uma mulher pode ser uma boa advogada?
– Acho apenas que qualquer ajuda, nesse momento, Senhor Ivan, é muito bem vinda.
– Muito bem Reverendo, podemos falar com Ava agora se o Senhor quiser.
– Quero, quero sim, meu filho.
– Espere um instante, vou chamá-la. A propósito, o Senhor aceita algo para beber ou comer?
– Não, muito obrigado.
Ivan passou pela cozinha para ir até onde Ava estava, quando foi abordado por Ambrozina, a negra criada, que tanto espanto causou ao Reverendo:
– Senhor Ivan, preparei chá e biscoitos para o Senhor e o Reverendo, posso servir, Senhor?
– Pode, leve tudo ao meu gabinete. Obrigado Ambrozina.
Ivan explicou tudo a Ava e ambos foram ao encontro do Reverendo. Ava estava apreensiva:
– Reverendo Nicos, esta é Ava, minha sobrinha.
– Encantado Senhora. – Disse o Reverendo –
– Senhora não, senhorita, Senhor Reverendo.
– Me desculpe.
– Sentemo-nos. – Disse Ivan, “quebrando o gelo” –
– Sirva-se Reverendo Nicos, Ambrozina preparou tudo especialmente para o Senhor.
– Não queria incomodar, Senhor Ivan.
– Não é incomodo, é um prazer, Reverendo.
– Obrigado.
Os três serviram-se de chá e biscoitos. O Reverendo não sabia como iniciar a conversa com Ava.
Ava apresentou-se moderna e impecavelmente vestida em seu tailler cinza, blusa branca muito fina por baixo.
Nesse instante, Ananda, Frida e Augustus, começaram a trabalhar.
– Agradeça à sua criada pelo delicioso chá, Senhor Ivan.
– Não é necessário agradecer, Reverendo, tudo o que Ambrozina faz é de bom coração.
– Sem dúvida. – Respondeu o Reverendo ainda intrigado –
– Bem, vamos ao assunto. Ava, o Reverendo está aqui para falar-lhe, não é mesmo Reverendo? Não se acanhe tanto, fale.
– Minha filha, talvez você seja a salvação de um inocente acusado.
– Como assim, padre?
O Reverendo Nicos relatou a Ava tudo quanto se passara com Henry. Ela ouviu-o com atenção e interesse, mesmo porque, estava sendo assistida pela equipe espiritual.
– Reverendo, devo dizer-lhe que acabo de me formar. Nunca defendi nenhuma causa até o presente momento. Pretendia retornar à França e retomar meu trabalho, a situação me impediu como deve saber, pois é muito difícil sair do país neste momento, ou seja, não sei se poderei ajudá-lo.
– Pode senhorita, ao menos tentar, por caridade?
– Posso pensar melhor sobre o assunto, Reverendo, e responder-lhe depois. É tudo o que posso lhe dizer neste instante.
 – Já é alguma coisa minha filha. Sou-lhe grato de qualquer forma. Agora, se me permitem, devo retirar-me.
– Fique mais um pouco, Reverendo. – Exclamou Ivan entusiasmado –
– Não posso, tenho trabalho a fazer meu filho. Sou-lhe muito grato pela amável recepção.
– Foi bom vê-lo Reverendo, volte sempre que quiser.
– Obrigado.
Ao se dirigir à saída, o Reverendo percebeu que havia um livro aberto sob uma poltrona. Fez menção de pegá-lo para “dar uma olhada”, quando Ava impediu-o quase que de forma enérgica.
– Desculpe Senhorita. Apenas interesso-me por livros, por favor, mais uma vez, desculpe minha indiscrição.
– Está bem Reverendo, peço desculpas por meus modos também.
Despediram-se os três enquanto Ambrozina, curiosa, espiava:
– Senhor Ivan, posso perguntar o que este padre veio fazer aqui?
– Ambrozina, não seja curiosa.
– Desculpe. – Respondeu envergonhada a “estranha” criada –
– Ambrozina, venha cá. – Chamou delicadamente Ava –
– Pois não, senhorita.
– Está muito curiosa com a visita do padre, não é mesmo?
– Estou. Desculpe senhorita, não tenho mesmo nada a ver com isso.
– Vou dizer-lhe o que ele veio fazer aqui. Veio pedir-me para advogar em favor de um amigo seu que está na prisão. Ele crê que o homem é inocente e foi preso e acusado injustamente.
– É mesmo senhorita? Que oportunidade boa para a senhorita, não acha?
– Ainda não sei, devo pensar um pouco.
– A senhorita está com medo?
– Por que diz isso, Ambrozina?
– É porque é o que parece. Parece que a senhorita está com medo.
– Não sei, só sei que devo pensar.
– Se tivesse medo não teria estudado, não é verdade, senhorita?
– Sim, claro Ambrozina, é verdade. O problema é outro, devo pensar melhor sobre o assunto, é só isso.
Ambrozina afastou-se deixando em Ava o sabor do desafio. Ava pensava: “Como, alguém tão simples, podia conhecer seus sentimentos mais profundos”? Ava sentiu medo realmente. Ambrozina, sem querer, alertou-a, chamando-a à realidade. Ela, Ava, agora era uma advogada, os homens gostassem ou não. Estudara, formara-se, mas não se sentia segura de sua posição. Não percebeu de pronto que este era o seu grande desafio, a sua grande prova, a sua maior missão.
Quando a noite chegou e Ava foi deitar-se, conciliar o sono foi difícil para a jovem “Doutora”. Diante de tal dificuldade, a equipe espiritual entrou em ação. Aplicaram-lhe passes tranquilizantes até que Ava finalmente adormeceu. Ananda, Frida e Augustus, falaram com Ava longamente. Ela por fim compreendeu a grandeza de sua tarefa e aceitou-a de ânimo firme, prometendo aos bons amigos, empenhar-se.
A equipe sentiu uma alegria enorme diante do primeiro sucesso de sua missão.

De volta a seu pequeno aposento, o Reverendo Nicos pensava na criada negra e na inexperiência de Ava quando Rafael, o seminarista, interrompeu seus pensamentos:
– Reverendo, posso falar com o Senhor?
 – Sim meu filho, o que deseja?
– Desejo saber sobre a sobrinha do Senhor Ivan. Correu tudo bem?
– Mais ou menos, ela ficou de pensar sobre o assunto, mas, me diga uma coisa Rafael, você sabia que o Senhor Ivan tem uma criada negra?
– Sabia sim senhor.
– Por que não me disse?
– Isso faz alguma diferença Reverendo?
Diante da pergunta feita com tamanha naturalidade e, despojada totalmente de qualquer preconceito, o Reverendo quase se desculpou:
– Não, Rafael, não faz nenhuma diferença. Apenas estranhei. Negros são incomuns em nosso país, como sabe.
– Sim, sei. O Senhor Ivan deve ter seus motivos para ter uma criada negra, não é mesmo, Reverendo?
– Sim, claro, deve ter.
– Se precisar de mim, Senhor Reverendo, sabe onde me encontrar.
– Obrigado Rafael, Deus o abençoe.
Sem que percebesse, o humilde seminarista acabara de aplicar uma lição em experiente “servo do Senhor”.
Após a saída de Rafael, o Reverendo Nicos continuou a pensar em todos os detalhes do dia. Pensou no livro que a Senhorita Ava protegeu tão energicamente. Seria uma espécie de leitura proibida?
Deixou seus pensamentos para enfrentar outra situação. Iria ver Margareth.
– Boa noite Reverendo. É muito bom vê-lo, sinto-me tão só!
Ananda e seus companheiros estavam presentes. A tristeza da mãe tocou a menina profundamente. Frida e Augustus tiveram de interferir e auxiliar Ananda a recompor suas forças.
– Margareth, Deus a abençoe e fortaleça minha irmã.
– Assim seja Reverendo. Alguma novidade?
– Talvez. –Falando assim, o Reverendo narrou a Margareth o seu encontro com Ava. Imediatamente ela ficou animada –
– Calma Margareth, a moça ainda não respondeu se aceita ou não o caso, seja prudente. O ânimo antecipado pode trazer frustrações terríveis.
– Desculpe. – Disse Margareth voltando a assumir uma postura triste –
– Margareth, assim também não! Querida, aprenda a dosar suas reações, analise as situações de maneira mais equilibrada, mais friamente. As reações extremadas são inerentes aos jovens inexperientes. Pense nisso sem pensar que estou repreendendo você. Amadureça, está na hora e é preciso.
– Tem razão. Não vou pedir para que me desculpe novamente. Prometo pensar no que me disse.
– Isso, assim é que se fala. O que nos resta a fazer agora é orar. Orar com fé e total confiança na providência Divina.
– Farei isso, Reverendo.
– Eu farei também. Lembre-se, pode contar comigo. Hoje e sempre, Margareth.
– Sei disso. Deus o abençoe sempre, Reverendo.
Margareth, após dizer estas palavras, sentiu forte emoção. Não pôde conter as lágrimas que escorreram sobre seu rosto aliviando a dor que oprimia seu peito. Vendo-a assim, tão frágil, o Reverendo sentiu forte desejo de tomá-la em seus braços e aliviar-lhe a dor. O passado fez com que ele não cedesse ao impulso. Apenas tomou suas mãos, beijou-as com afeto e prometeu vê-la no dia seguinte, ao que ela assentiu.
Os três trabalhadores espirituais assistiram a cena muito comovidos. Frida e Augustus perceberam que Ananda havia perdido, devido à forte emoção, a oportunidade de conhecer uma das muitas verdades que deveria descobrir. Seria fácil se o controle de suas emoções estivesse totalmente ajustado.
– Ananda, para que nosso trabalho tenha êxito, você deve controlar mais as suas emoções. Compreendemos seu envolvimento, mas, devemos adverti-la que sem controle, nosso trabalho será muito mais difícil, pode até mesmo fracassar.
– Me perdoem irmãos, me ajudem, por Deus, me ajudem!
Nesse instante, Frida e Augustus submeteram Ananda a um tratamento especial de reajuste.

Henry vivia dias de desespero na prisão, chegando até mesmo a pensar em suicídio. Naquela manhã, porém, teve uma visão que fortificou seu espírito: Ananda. Ao vê-la, em estado de vigília, Henry mal podia crer. Com lágrimas nos olhos, disse:
– Filha querida, não fui eu. Deus sabe o quanto a amo. Estou aqui injustamente. Nunca, jamais eu a machucaria meu amor.
– Sei disso papai, fique tranquilo, confie em Deus. Aceite com humildade a ajuda que lhe chegará, confie.
– Confiarei minha filha.
A visão se desfez. Henry nunca mais pensaria outra vez em suicídio. Nem negaria a ajuda de uma mulher, no caso, de uma advogada.
Assim como o Reverendo, Henry nunca diria a ninguém sobre sua visão. O medo da desconfiança não permitia a revelação. Isto aconteceu muitas vezes, com várias pessoas, sob as mais diferentes circunstancias.


AVA

Ava despertou de seu sono de ânimo renovado. Sentia-se forte, confiante e disposta a trabalhar.  Após pensar muito, tomou a sua decisão:   aceitaria o caso sem nada cobrar. Faria o trabalho por amor à profissão e por caridade, uma vez que sabia que o necessitado era extremamente humilde. Ambos se beneficiariam: ela exercitaria os seus conhecimentos; ele teria uma advogada que envidaria todos os esforços para provar a sua inocência.

– Bom dia sobrinha, dormiu bem? – Perguntou, de muito bom humor, o Senhor Ivan.
– Sim, meu tio, muito bem. Tomei uma decisão tio, vou ajudar o amigo do Reverendo. E que Deus me ajude!
– Fico feliz Ava, o pobre homem necessita mesmo de uma mão. Conte comigo no que for necessário.
– Obrigada, tio. Vou procurar o Reverendo agora.
Assim dizendo, a jovem advogada foi à procura de sua primeira defesa, de seu primeiro trabalho. Feliz e ansiosa por encontrar ali, em ambiente hostil devido à guerra, um trabalho que lhe permitisse exercitar seus conhecimentos, por anos a fio acumulados.

Diante da porta da igreja, residência do Reverendo, Ava, por um breve momento, hesitou. Imediatamente, a equipe espiritual tratou de equacionar a situação, devolvendo à Ava força, confiança e determinação.
Antes mesmo que ela batesse à porta, Rafael que vinha caminhando e percebeu que a moça queria alguma coisa, perguntou:
– Posso ajudá-la?
– Preciso falar com o Reverendo Nicos.
– Pode voltar um pouco mais tarde? Esta é a hora das orações. Não podemos incomodar...
Antes que Rafael terminasse de falar, o Reverendo surgiu dizendo:
– Rafael, hoje as orações esperarão. Entre, por favor, Senhorita Ava.
– Obrigada, Reverendo. Antes de tudo, bom dia!
– Bom dia Senhorita, desculpe, é que...
– Por favor, Senhor Reverendo, chega de desculpas entre nós. Estou aqui para dizer-lhe que aceito ajudar seu amigo. Estou disposta a iniciar o trabalho imediatamente.
– Deus seja louvado!
Após a comunicação de Ava, o Reverendo Nicos ajoelhou-se dando graças a Deus.
Ava comoveu-se, lágrimas discretas formaram-se em seus olhos. Conteve-as, não ficava bem uma advogada envolvida emocionalmente com o caso.
– Reverendo, precisamos conversar sobre os acontecimentos para que eu possa começar o trabalho. Vamos lá?
– Sim minha filha, vamos lá.
Inteirada sobre os fatos, Ava comunicou ao Reverendo que o próximo passo seria ver Henry.
– Podemos ir vê-lo agora, se não se opuser Senhorita.
– Vamos Reverendo.
Ava e o Reverendo Nicos dirigiram-se à delegacia cheios de esperança. A equipe espiritual acompanhava-os, fortalecendo seus ânimos.
– Bom dia, delegado Orestes! – Exclamou feliz o Reverendo.
– Bom dia. – Respondeu secamente o delegado –
– Delegado, permita que lhe apresente a advogada de Henry, a Senhorita Ava Deléon.
Surpreso, o delegado Orestes deu um salto de sua cadeira:
– Como Reverendo? Advogada de Henry?
– Sim. A Senhorita Ava é a advogada de Henry. Ela é sobrinha do Senhor Ivan. Conhece o Senhor Ivan, não é mesmo delegado?
– Conheço pouco.
– É o bastante. Bem, Ava é a advogada de Henry e quer vê-lo agora, delegado.
– Antes devemos conversar. Existem procedimentos burocráticos aos quais não podemos fugir Reverendo.
– Sim, vamos a eles delegado.
O delegado estava visivelmente surpreso. “Uma advogada?”, pensava ele consigo.
– A Senhora não é da cidade, não é mesmo?
– Não, sou francesa, resido lá. Aqui moram meus tios. A propósito, sou Senhorita.
Terminados os procedimentos burocráticos, o delegado permitiu a entrada de Ava e do Reverendo, os quais foram devidamente acompanhados por um soldado.
– Bom dia Henry, alegre-se filho, boas novas trago para você! – Exclamou feliz o Reverendo –
– Bom dia Reverendo.
– Apresento-lhe sua advogada, a Senhorita Ava, advogará em seu favor. Não é uma boa nova Henry?
– Sim, claro que é. Bom dia Senhorita!
– Bom dia, Henry! Precisamos conversar. Deve contar-me tudo o que se passou sem nada omitir. Disso dependerá o sucesso de sua defesa.
– Entendo Senhorita, podemos começar?
– Agora mesmo.
Henry narrou os acontecimentos a Ava, que o ouvia atenta, tomando algumas notas. É claro que omitiu a razão de seu dissabor no dia do acidente da filha. Nunca revelaria sua ligação com Eliza. Mesmo que isso lhe custasse a liberdade.
A equipe espiritual acompanhava atenta e satisfeita o encontro de Ava e Henry. Vez por outra, Ananda acariciava os cabelos do pai e encostava carinhosamente, sua cabeça em seu ombro. Transmitia-lhe, assim, força e bom ânimo.
Para Henry, ter uma advogada era inusitado. Ouvira falar que já existiam mulheres em cargos importantes, mas nunca pensou que conheceria uma, nem tampouco pensou que necessitaria dos serviços de uma mulher. Ele não estava em condições de escolher. Devia, antes sim, ser grato a Deus por conseguir quem o defendesse sem nada cobrar. Pensando assim, sufocou seu preconceito e passou a sentir que precisaria confiar em Ava como se ela fosse um homem. Lembrou das palavras da filha e compreendeu que seu auxílio havia chegado.
Depois de longa conversa, Ava e o Reverendo despediram-se de Henry.
De volta à solidão, Henry começou a pensar em Eliza e em tudo o que se dera naquele trágico dia.
Ao ouvir e visualizar os pensamentos do pai, Ananda chocou-se e, mais uma vez, Frida e Augustus tiveram de ampará-la. Ao recobrar o equilíbrio emocional, Ananda falou:
– Irmãos, ouviram isso? Meu pai e Eliza são amantes! Pobre mamãe espero que ela nunca saiba desta traição.
Frida calmamente falou:
– Não julgue precipitadamente, irmã. Espere, conhecerá outros fatos que a farão compreender melhor a razão de tudo. Não se deixe inflamar assim por um ato do qual você desconhece as razões. Antes de tirar conclusões, todos devemos analisar bem as situações. Conhecer o que realmente se passa, sob todos os aspectos, é o que de mais sensato se pode fazer.
– Tem razão, Frida, desculpe. Sou mesmo apenas uma aprendiz que está dando trabalho, não é mesmo irmãos?
– Fique tranquila, disse Augustus, sorrindo.

O Reverendo Nicos se despediu de Ava e apressado, foi ao encontro de Margareth. Ela, ao vê-lo na porta, sentiu que alguma coisa havia mudado.
– Bom dia, alguma novidade, Reverendo?
Sem responder e obedecendo a forte impulso, o Reverendo abraçou fortemente Margareth. Esta, por sua vez, correspondeu emocionada ao abraço.
– Margareth, Ava aceitou defender Henry!
– É mesmo? Venha, sente-se e conte tudo.
A equipe espiritual assistia ao encontro dos dois com alegria. Ambos emanavam vibrações luminosas de harmonia. Ananda sentia uma felicidade imensa.
Após relatar os fatos a Margareth, o Reverendo fez menção de despedir-se. Ela, gentilmente pediu para que ele almoçasse com ela. Assim poderiam conversar mais um pouco e comemorar os acontecimentos. Ele aceitou feliz. A companhia de Margareth muito o alegrava.
Após o almoço, o Reverendo saiu feliz da casa de Margareth. Ela também sentia que suas forças haviam se renovado. Sentia algo de muito bom no ar.
A equipe espiritual irradiava alegria até que Margareth começasse a pensar no passado. Frida e Augustus advertiram Ananda para que ela mantivesse firmeza e calma diante das novas revelações que estavam por chegar.
Margareth, como num filme, passou a recordar seu primeiro encontro com o Reverendo, o forte sentimento que lhe arrebatou ao vê-lo pela primeira vez. Lembrou da paixão que daí nasceu. Da impossibilidade de concretizar o seu sonho. O casamento com Henry... e, repentinamente, Margareth cortou a linha de pensamento, deixando a equipe desejosa por saber mais a respeito daquela história.
Ananda, absolutamente surpresa e assustada, disse:
– Irmãos! Nunca, jamais suspeitei que minha mãe...
Foi abruptamente interrompida por Augustus:
– Irmã, foi devidamente alertada sobre as revelações que haveria de ter. Controle sua emoção e concentre-se no trabalho a realizar. Pense que não existe mãe, pai, amigo, inimigo etc., mas, sim, irmãos nossos que, assim como nós, têm seus segredos, fraquezas, frustrações.
Diante de tão enérgica advertência, Ananda controlou-se e percebeu que estava tendo dificuldades para controlar as suas emoções.  

Na manhã seguinte, o delegado Orestes, após avaliar as investigações a respeito do caso Ananda, deu por encerrada essa etapa do processo. O único suspeito era mesmo Henry. Desse modo, a próxima etapa seria o julgamento. A apreensão de todos, viria a ser o juiz. Países em guerra corriam o risco de terem de se submeter a julgamentos nos quais teriam “estranhos” a sentenciarem os seus prisioneiros.

No aconchego de seu quarto, o Reverendo Nicos podia repassar, mentalmente, o seu dia.
O livro que a Senhorita Ava havia protegido o intrigava profundamente. Será que a Senhorita tinha algum segredo?Indagava-se o Reverendo.
Em meio a esses pensamentos, nosso Reverendo inicia sua leitura noturna do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec. Como já sabemos, essa leitura era absolutamente proibida pela igreja católica.

Ao voltar para casa, Ava se sentia forte e determinada. Sua primeira causa seu primeiro trabalho! Pensava: “dedicarei a minha alma por esta causa e, que Deus permita seja o certo a ser feito”.
Sem que percebesse, esses pensamentos colocavam-na em sintonia com a equipe espiritual de Ananda, bem como com outras entidades empenhadas em fazer o bem. Ava estava amparada.





A MORTE DE FREDY

Simon e Fredy experimentavam a alegria do amor correspondido. Em poucos dias tomariam por noivas as irmãs gêmeas: Loraine e Anne Marie, filhas do delegado Orestes.
Fredy sentiu necessidade de comunicar à Eliza o seu noivado próximo. Queria mesmo era convidá-la a participar do evento, uma vez que passara a considerá-la como mãe.
– Eliza, Eliza, onde está você minha querida? – Perguntou em voz alta e alegre Fredy até que se deparou com o mais absoluto silêncio. Sentiu um frio intenso a cortar-lhe a pele:
– Eliza?
Passou a gritar o nome da irmã desesperadamente até que fosse silenciado por mão firme:
– Fique quieto ou corto o seu pescoço. – Disse a voz em tom autoritário –
Fredy calou, sentiu escorrer por suas pernas, o calor da urina que, contra a sua vontade, banhou-lhe a calça.
– O que quer aqui? – Perguntou o homem a Fredy.
– Vim visitar a minha irmã.
– Irmã?
– Sim, minha irmã mora aqui.
– Conhece bem a quem chama de irmã, caro amigo?
– Sim, conheço.
O homem gargalhou sarcasticamente.
– Pois se a conhece bem, deve saber que ela é uma criminosa.
– Criminosa?
– Ora, não se faça de desentendido. Disse que a conhece bem, deve conhecer seus crimes também. Já sei, é cúmplice dela!
Sem esperar resposta de Fredy, o homem começou a gritar o nome do companheiro:
– Perry, Perry, venha rápido!
Em poucos minutos o tal Perry apareceu:
– O que foi?
– Veja o que temos aqui, um cúmplice da “bruxa”.
– Ora, vejam! É seu ajudante?
– Não sei do que falam senhores. Vim apenas visitar minha irmã Eliza.
– Irmã? É pior do que eu pensava. Uma família de malfeitores!
– Amarre-o na árvore e venha comigo.
Fredy, amarrado fortemente à árvore, viu os dois homens dirigirem-se para a casa de Eliza. Impossibilitado de reagir, chorou se perguntando:
– O que está acontecendo meu Deus?
Ao longe pôde ouvir gritos de mulher. Deduziu que os gritos fossem de Eliza. Passou a fazer a única coisa que podia: rogar a Deus e a Jesus por auxílio. Imediatamente o seu pedido foi ouvido pela equipe espiritual em missão. Uma vez que Eliza estava ligada a Henry, a equipe também deveria auxiliá-la.
Frida, Augustus e Ananda aproximaram-se de Fredy e, logo após, dos homens que com Eliza estavam. Entenderam toda a situação e começaram a trabalhar para que tudo se desse da melhor forma possível para todos.
Assim conseguiram impedir que a vida de Eliza fosse tirada pelos homens enfurecidos. Mas para Fredy, no entanto, o melhor era o desenlace. Por isso, num exagero de fúria, Perry esmurrou a cabeça de Fredy com muita força. O traumatismo craniano foi fatal. Acreditando terem causado a morte de Eliza também, finalmente se foram.
Eliza acordou do desmaio e pôde constatar sua situação. Seu corpo estava banhado de sangue. Gritou, correu até a porta da casa e, então, novamente desmaiou. Fredy jazia preso à árvore.
A equipe espiritual deveria agir depressa para evitar o desencarne de Eliza. Olharam pelas redondezas e viram Manoela, que colhia as primeiras flores da primavera no campo. Intuíram-na e conduziram seus passos até a casa de Eliza. Manoela fazia um passeio agradável, como há tempos não fazia, até se deparar com a traumática cena: Fredy, cabeça pendendo do corpo, atado a uma árvore. Em seguida viu Eliza, esvaindo-se em sangue na porta de sua casa. Manoela quase desmaiou, mas a equipe espiritual precisava dela. Aplicaram-lhe passes energéticos e, assim, a senhora se sentiu munida de forças inexplicáveis para correr muito até a cidade. Logo que chegou ao hospital comunicou o fato e, imediatamente, uma equipe de socorro foi enviada. A triagem foi simples: Fredy, para o necrotério, Eliza, para cirurgia de emergência.
A cidade, chocada, comentava a noticia. Mas o que teria acontecido?
Até que uma mulher, em meio ao povo compadecido, gritou:
– A justiça de Deus tarda, mas não falha, a “bruxa” teve o que mereceu!
Ao que todos direcionaram seus olhares sem entender o que a mulher queria dizer. Aproximaram-se dela querendo saber do que falava:
– Então vocês não sabem? Não sabem que a “bruxa” provocou inúmeros abortos em pobres mulheres inocentes?
As pessoas entenderam menos ainda e quiseram saber mais:
– Pois eu vos digo. Esta mulher, de quem vocês se compadecem, receitou, por maldade, chás abortivos a muitas mulheres. Ela dizia cultivar plantas medicinais, de fato, em alguns casos, ajudou a algumas pessoas, mas, apenas para mascarar sua real intenção: não permitir o nascimento de crianças em nossa cidade! Se todas as mulheres que buscaram o seu auxílio, aqui viessem, vocês entenderiam do que estou falando.
Rapidamente algumas das mulheres mencionadas apareceram:
– O que? Então ela...
Muito choro se deu, muito ódio brotou a partir daquela acusação.
A mulher continuou:
– Bem que ela tentou com Margareth, mas, graças a Deus, não conseguiu!
As pessoas entreolhavam-se surpresas e cheias de repulsa.
Ananda, tão surpresa quanto as pessoas encarnadas, quase caiu novamente em emoção forte. Desta vez, porém, se conteve e apenas olhou seus companheiros como a indagar:
– O que está acontecendo?
Frida e Augustus aconselharam-na a refletir.
Após refletir, serenar e fazer o que devia para compreender a situação, Ananda se apiedou profundamente de Eliza. Orou sinceramente por ela.

O enterro de Fredy, como o de qualquer pessoa, foi triste. A noiva prometida estava inconsolável.
Simon sufocava dentro do peito uma revolta imensa. Culpava Eliza, passou a odiá-la.

A equipe em missão imediatamente auxiliou Fredy a desembaraçar-se do corpo. Encaminharam-no ao pronto atendimento espiritual.

A cirurgia que Eliza sofreu fora delicada e demorada. Vários dias se passaram até que ela recobrasse os sentidos. Ciente da morte do irmão querido, dor profunda se abateu sobre ela, deixando-a totalmente imóvel e apática. O parecer médico sobre o estado da paciente não se definia até que concluíram tratar-se de “estado profundo de choque“. Eliza foi encaminhada a uma clínica de doentes nervosos.

Henry tomou conhecimento sobre o destino trágico de Eliza por conta dos comentários dos carcereiros. Quis saber mais, tentou perguntar e foi ignorado. Sozinho em sua triste cela, Henry, em meio ao pranto, começou a orar pedindo ajuda a Deus.
Ananda imediatamente sentiu a aflição do pai e, na companhia de seus amigos, foi vê-lo. Lendo seus pensamentos, pôde compreender o porquê de sua aflição. Vibrou intensamente por ele e sua vibração foi tão intensa que, Henry recebeu a graça de novamente poder vê-la.
– Filha, estou sofrendo. É você mesmo? Não estou ficando louco?
– Não, meu pai querido, não está louco. Sou eu mesma. Peço que ore sempre a Deus e a ele confie sua vida. Seja forte, tenha fé e esperança.
Terminada a frase, Ananda não mais pôde ser vista por Henry, no entanto a visão fora bálsamo para aquela alma tão aflita!

Tão logo raiou o novo dia, Henry já estava de pé, aflito, ávido por notícias de Eliza. Sua esperança era de que alguém, informado, fosse visitá-lo e, assim se deu. Antes que a manhã chegasse ao seu final, o Reverendo Nicos foi vê-lo.
– Que bom que veio Reverendo, ouvi uma conversa dos carcereiros a respeito de Eliza, diga-me, o que houve?
O Reverendo narrou toda a estória a Henry, que ouvia cada palavra com apreensão, dor e perplexidade diante de fatos tão graves. Ao mesmo tempo em que ouvia, pensava:
– Por que, Eliza, qual a razão para tamanha crueldade? Meu amor não foi suficiente?
O Reverendo, percebendo a agonia do amigo, perguntou:
– Henry, contei-lhe a estória, mas você não me parece bem. O que houve?
– Nada, estou simplesmente pasmo, chocado!
– É, meu irmão, toda a cidade está. Falemos agora de você...
Henry não conseguia prestar mais atenção em nada do que o Reverendo dizia. Sua mente estava em Eliza. A decepção que experimentava, não podia dividir com ninguém, exceto com Deus.
Novamente o Reverendo, percebendo a falta de atenção de Henry, perguntou:
– O que há afinal com você? Estou falando e você parece ausente.
– Não me sinto muito bem hoje, Reverendo, podemos falar amanhã?
– Henry, confesso que não estou entendendo. Primeiro você fica feliz por eu ter vindo, pouco depois fica distante, como se aqui eu não estivesse. Abra seu coração, não se esqueça que, antes mesmo de eu ser seu amigo, sou um padre.
– É esta estória sobre Eliza, fiquei chocado, é só isso.
O Reverendo Nicos olhou nos olhos de Henry firmemente por alguns segundos que, passados, levaram Henry a cair em pranto profundo e dolorido. O Reverendo nada disse, apenas abraçou aquele irmão necessitado.
Sem que soubessem, a equipe espiritual ali estava auxiliando a ambos.
– Quer falar o que o aflige tanto, Henry?
Henry, frágil e não suportando mais o peso de seu segredo, contou tudo o que houve entre ele e Eliza.
Pego de surpresa, o Reverendo não sabia o que dizer.
– E então Reverendo, o que me diz?
– Digo-lhe que todos nós erramos. Às vezes não sabemos nem mesmo porque erramos, mas nada foge aos propósitos de Deus. Tenha calma.
Diante de tamanha compreensão, Henry sentiu-se mais tranquilo, muito embora não conseguisse digerir totalmente os atos de alguém que julgava conhecer e amar.

Anne Mary, após o desencarne de Fredy, caiu em depressão profunda, adiando assim, o noivado da irmã com Simon que, embora dolorido pela falta do irmão e pela loucura de Eliza, desejava casar-se o quanto antes. Amava loucamente a noiva, Loraine.

O delegado Orestes, pai das moças, devido à sua posição, sentiu-se na obrigação de encontrar o culpado pela morte do futuro genro, experimentando, assim, um ódio profundo por aquele que roubara de sua filha os sonhos mais felizes da juventude.
Pouco a pouco, este ódio viria a se transformar em pura obsessão.





O DESPERTAR ESPIRITUAL DE FREDY

Fredy acordou na espiritualidade muito confuso. Sentia dores. As últimas impressões de seu sofrimento ainda eram muito fortes. Aos poucos compreendeu o que se dera e pôde se reunir aos pais. A alegria do reencontro foi imensa e, o auxílio por eles prestado, de grande valia e esclarecimento.
Orientado, esclarecido e, porque possuía nobres ideais, obteve permissão para unir-se à equipe a qual Ananda vinha trabalhando. Foi por todos recebido com alegria. Era mais uma força que a eles se unia. Comovido ao encontrar Ananda, Fredy chorou qual criança que sente muita saudade de um carinho, de um afago amigo.

Por que Anne Mary necessitasse de auxílio urgente, a equipe concentrou suas energias na moça. Com o passar dos dias passou a se sentir confortada. Não entendia porque se sentia tão mais forte, tão mais firme e corajosa. Em pouco tempo, exigiu que a irmã ficasse noiva de Simon o quanto antes. Sentia-se mal por ser a razão do pesar dos apaixonados. Sinceramente, sentia necessidade de sabê-los felizes.
A reação de Anne Mary comoveu a equipe espiritual que, agradecida a Deus, devia seguir seus propósitos. Anne já estava amparada e seria amada por Fredy sempre.
O noivado de Simon e Loraine transcorreu sem pompas. Um jantar íntimo foi oferecido. Para os mais sensíveis, a presença de Fredy foi notada.
Eliza, após perceber a sua real situação, após cair em si, quis fugir da clínica. Arquitetou um plano. Mesmo ciente da dimensão do prejuízo que causou, da morte do irmão e da perda de seu único amor, ao invés de compreender o seu erro, revoltou-se contra tudo e contra todos.
Em seu devaneio, Eliza acreditava ter razão. Pensava que o mundo conspirava contra ela. Conseguiu fugir, vagou a esmo de cidade em cidade na condição de mendiga. Simon nem mesmo quis tomar conhecimento da fuga da irmã. Fredy, compadecido, tentava inspirá-la a sair das ruas. Suas tentativas eram vãs. A amargura e a vibração da irmã não se afinavam com as vibrações dele. Irmãos, que ainda se demoravam nos sentimentos inferiores, inspiravam Eliza a vagar a fim de atraí-la para si, para onde o sofrimento é constante e a Luz, jóia rara de se ver, só se dá com o arrependimento verdadeiro, com a vontade sincera de progredir.
Fredy sofria, mas era amparado e compreendia as provas de Eliza.
Em seu devaneio, Eliza não reconhecia os lugares por onde passava, apenas caminhava sem rumo, sem pouso. Numa dessas caminhadas, foi reconhecida por algumas mulheres por ela prejudicadas que, aos berros, reuniram outras e, num ato de ódio, apedrejaram a então mendiga. Novamente coberta de sangue, Eliza foi socorrida, mas desta vez alguém muito especial estaria com ela: Ambrozina.





A NEGRA AMBROZINA

Ao abrir os olhos e deparar-se com uma negra, Eliza assustou-se.
─ Calma – Disse Ambrozina suavemente –
─ O que faz aqui? Quer me acusar você também?
─ Não. Não vim para te acusar, vim prestar auxílio.
─ Auxílio? Você? Uma negra?
Eliza gargalhou desfazendo daquela figura doce e amiga.
─ Eliza! - Chamou energicamente Ambrozina –
Diante de tão firme chamamento, Eliza se aquietou e seus olhos viram a transformação da “negra”.
 Eliza viu Ambrozina transformar-se em uma mulher branca, loura e tão bela que até parecia um anjo.
─ Mas o que é isso? Estou louca? Só posso estar louca!
─ Não está louca não. Deus é misericordioso, Jesus é nossa Luz guia para a vida. Eles permitiram que eu aqui viesse para auxiliá-la. Aceite este carinho minha irmã.
─ Irmã?
─ Sim, irmã.
─ Mas como? Do que é que você está falando?
─ Eliza, escute...
Ambrozina falou com Eliza durante muito tempo. Ao final deste tempo, despediu-se como de fato era na atual encarnação, negra. Eliza disse “até breve” demonstrando simpatia pela nova amiga e adormeceu em paz.
Fredy, que estava presente durante a conversa, podia agora respirar mais aliviado quanto ao destino da irmã.

Ambrozina era pessoa simples, de bom coração. Era empregada na casa do Sr. Ivan e raramente saía de casa. Sua cor chocava as pessoas. Se essas pessoas soubessem o quão elevada era a sua alma, beijar-lhe-iam os pés.
O Sr. Ivan trouxe Ambrozina da África por ocasião de uma visita dele a uma das colônias Belgas. Após alguns dias de sua chegada ao continente africano, o Sr. Ivan contraiu séria enfermidade. A assistência médica da região era precária. Na maioria das vezes as pessoas utilizavam remédios caseiros para tratarem-se das doenças. Recorriam ainda a “curandeiros”, com bastante êxito em muitos casos.
Foi o que aconteceu com o Sr. Ivan. Após ser medicado com chá de ervas, não respondeu à medicação e continuou sentindo-se muito mal. Foi então que conheceu Ambrozina, uma menina negra e franzina que trazia nas mãos e na fé a cura para diversos males.
Ambrozina passou três dias ao lado da cabeceira da cama do Sr. Ivan. Só deixou-o após vê-lo andando e comendo normalmente. Tal dedicação tocou fundo o coração do Sr. Ivan que quis conhecer melhor a criatura que o havia salvado. Por isso foi levado por alguns nativos à casa de Ambrozina, um barraco pobre de dois cômodos. Espantado e sem saber o que dizer, o Sr. Ivan perguntou pela família da menina a um dos nativos:
– Família?
 – Ambrozina não tem mais família de sangue. Todos foram mortos pelos colonizadores. Ela sempre diz que sua família agora são todas as pessoas que precisam de ajuda. Seus pais e irmãos também eram “curandeiros”, mas estão mortos.
Frio intenso atravessou o corpo do Sr. Ivan que, naquele exato instante, decidiu amparar Ambrozina pelo resto de seus dias.
– Ambrozina, sou-lhe eternamente grato pela minha cura.
– O Senhor não agradeça a mim, existe força maior que a minha que trabalha através de mim. Sirvo apenas de “ferramenta” desta força maior, meu Senhor.
─ És modesta Ambrozina.
─ Não sou não. Digo sempre apenas o que é verdade.
─ Então me diga de onde vem esta força que não é sua?
─ Olhe Sr. Ivan, olhe lá para o céu. Sinta quanta beleza há no mundo, o quanto é perfeito o ser humano e o quanto todas as coisas são belas e perfeitas. Olhe, use os olhos de seu coração e encontrará a força de que falo. Esta força está além da compreensão humana, esta força é o que na sua fé vocês chamam de Deus.
Emocionado, o Sr. Ivan mais uma vez ficou sem palavras.
– Ambrozina, quero fazer-lhe um convite, quero que você pense, até a data de minha partida, em ir morar junto a mim e a minha família na Bélgica. Lá terá conforto e posso assegurar que terá paz e carinho.
Surpresa, Ambrozina ficou de pensar sobre o assunto. Decidiu aceitar o convite do Sr. Ivan. Não pelo conforto, nem pelo carinho, mas sim pela missão que seus mentores espirituais trouxeram à sua compreensão. Ciente do trabalho a cumprir, Ambrozina acompanhou o Sr. Ivan.
Ao chegar à Bélgica, Ambrozina se sentiu assustada, rejeitada. Só o que lhe dava forças era a certeza na Espiritualidade maior, a quem entregava a vida e o coração. E assim foi.
Logo de início, Ambrozina deparou-se com o primeiro desafio: curar a esposa do Sr. Ivan de grave “enfermidade”, ou melhor, obsessão.
Dias a fio foram necessários até que a esposa do Sr. Ivan fosse curada. Todos os envolvidos estavam pasmos: médicos, religiosos, céticos. Um só fato era inegável, Deolinda estava curada, corada, feliz e bem. A partir daí, Ambrozina passou a ser tratada como membro da família, muito embora ela própria assim não quisesse. Fez questão de quarto separado, de função de serviçal na casa, de salário compatível com sua função. Dizia:
─ As pessoas têm preconceitos, não quero que vocês, meus amigos, venham a sofrer por mim. Quero apenas alegria e paz em nome de Deus.
Por ser merecedora de profundo respeito, Ambrozina foi atendida em seus pedidos. A maior parte do salário que recebia ia direto para os fundos de reserva de auxílio ao povo africano.

Esta é a história de Ambrozina. Negra na cor da pele, mas transparente e cristalina na cor da alma.





A AFLIÇÃO DE HENRY

Ava preparou com extremo cuidado a defesa de Henry. Buscou detalhes, ouviu pessoas. As referências que angariou eram as melhores possíveis. O único detalhe da vida de Henry por ela desconhecido era a sua ligação com Eliza. Esse detalhe começava a incomodar o Reverendo Nicos que, ciente de tal ligação, começava a preocupar-se. Esta preocupação levou-o até Henry:
─ Henry, como se sente?
─ Não vejo necessidade de responder, Reverendo.
─ Sim, entendo.
─ Henry, estou preocupado. Vim vê-lo por conta dessa minha preocupação.
─ Que preocupação?
─ Sua ligação com Eliza. Penso que este fato, diante de tudo o que hoje sabemos sobre ela, seja relevante.
─ Não entendi Reverendo.
─ Henry, o que me ocorre é cruel, mas diante dos fatos não posso deixar de pensar nessa possibilidade e Deus me perdoe se eu estiver enganado.
─ Me assusta falando assim, Reverendo.
─ Henry, perdoe-me se venho trazer-lhe mais desconforto, porém penso na probabilidade de Eliza ter assassinado Ananda.

Nesse instante, a equipe espiritual, pronta para trabalhar, ali se encontrava.

─ Não, Reverendo. Sei que Eliza me amava. Esse delito ela não cometeria. Não, não pense mais nisso. O Senhor se engana. Ela não seria capaz de manter-me distante dela. Tudo o que ela queria era a minha presença. Não Reverendo, não.
Diante do sofrimento de Henry e de sua certeza quanto à inocência de Eliza, o Reverendo Nicos sufocou dentro de si sua forte suspeita.

A equipe trabalhava silenciosa. Ananda, assustada, olhava para todos como querendo um esclarecimento. Nada foi dito.

Em breve seria marcado o julgamento de Henry.
O verão se aproximava. As temperaturas permitiam maior circulação de pessoas pelas ruas.
O coração de Ananda começou a apertar.
─ Amigos. – Disse Ananda preocupada –
─ Em poucos dias o verão se iniciará, o tempo urge. Ajudem-me, o que posso fazer? Estou aflita!
Ao que Frida respondeu:
─ A calma, a fé e a confiança serão determinantes para o sucesso de nossa missão. Concentremo-nos nestas três palavras e, façamos delas, exercícios práticos”.
Ananda caiu em pranto profundo e dolorido.
Frida e Augustus, entreolhando-se, sabiam que essa dor era necessária.

O delegado Orestes não pensava mais em Henry. Queria apenas encontrar os assassinos do futuro genro. Reuniu todos os homens de que dispunha para a missão e incutiu neles seu ódio e sua sede de vingança.
A diligência saiu sedenta à procura dos algozes de Fredy
Embora cego pelo ódio, o delegado Orestes foi lembrado por seus superiores, de que devia encaminhar o julgamento do prisioneiro Henry com base em suas investigações. Era seu dever dar continuidade ao processo sobre a morte de Ananda.
Sem dar importância ao caso, o delegado chamou Ava, a advogada, à sua presença:
─ Senhorita, fui cobrado por meus superiores, quanto à remessa do processo para julgamento do Sr. Henry, o que me diz?
─ Desculpe delegado, mas devo dizer-lhe algo?
─ Deixe-me ser mais claro. A Senhorita tem uma defesa pronta para seu cliente? Veja, simpatizo com Henry, quero apenas que a justiça seja feita.
─ Bem, compreendo melhor agora. Creio estar pronta para defender Henry no tribunal.
─ Muito bem, a Senhorita será informada em poucos dias. Prepare-se. Os ânimos de nossos cidadãos não estão muito favoráveis neste momento.
─ Sei disso delegado.
─ Muito bem, até breve então Senhorita Ava.
Ava lançou ao delegado um olhar frio, duro e severo, antes de despedir-se. Ao qual o delegado estremeceu sem nada entender. Ava disse apenas:
─ Nos veremos Senhor delegado.
Com apenas um aceno de cabeça, o delegado assentiu.
Ava saiu da delegacia confiante.

Margareth e o Reverendo Nicos estavam mais unidos que nunca na causa de Henry. Uniram suas forças e preces. Reforçaram ainda seus laços afetivos. Sentimentos puros e verdadeiros, que só quem muito bem quer pode compreender. Trabalhando pelo bem, ambos sentiam-se mais fortes.
A proximidade do julgamento causava ansiedade sem abalar a fé e a confiança na Divina Providência que os dois, nos últimos tempos, vinham sentindo de modo mais profundo e consciente.
Certo dia, Margareth e o Reverendo estavam orando juntos na capela da igreja quando luz intensa deles se aproximou. Mais uma vez o Reverendo pôde ver, em meio à luz, a bela figura de Ananda que o olhava com carinho. Desviou o olhar da visão para verificar se a companheira também podia ver a filha. Logo percebeu que Margareth nada via. Calou-se agradecido a Deus por mais esta benção.
Mentalmente o Reverendo disse a Ananda que faria tudo o que pudesse para ajudar seu pai e que sempre ampararia sua mãe e, mais uma vez, agradeceu comovido. Lágrimas chegaram, molhando de pura emoção o rosto do Reverendo. A imagem se desfez e Margareth viu que o Reverendo chorava.
─ O que houve?
─ Nada, estou simplesmente emocionado. Às vezes, quando oro entregando-me de corpo e alma à prece, chegam as lágrimas. Isso me faz um bem enorme, esteja certa.
─ Assim o Senhor me emociona também, Reverendo.
─ A emoção é pérola divina. Expressão da grandeza da alma, da força da fé.
─ Quanta inspiração! Que Deus o conserve sempre assim.
O Reverendo sorriu e imediatamente lembrou-se de seu tesouro, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Mais precisamente do Capítulo I que fala sobre o Espiritismo.

Finalmente a data do julgamento de Henry foi marcada, os ânimos dos envolvidos começaram a ficar tensos. Henry não conseguia mais conciliar o sono. Ava ia vê-lo todos os dias a fim de consolidar sua defesa.
A equipe espiritual colocou-se em profunda oração. Durante o sono, Ambrozina unia-se à equipe reforçando a corrente.
Eliza que de nada sabia, recuperava-se no hospital. Ambrozina passaria a visitá-la com frequência e, intuitivamente, a deixaria a par dos fatos.
Em seu leito de convalescente, Eliza começou e sentir forte saudade de Henry, somada à do irmão querido morto por sua culpa. Era a dor da consciência chegando.
Durante o sono, Eliza passou a ter pesadelos terríveis. Crianças a perseguiam com punhais afiados nas mãos, ela corria, corria sem parar e despertava cansada e apavorada. Sua dor estava apenas começando.

A angústia de Henry, na prisão, era grande. Perdera a filha, estava sendo acusado pela sua morte e, a mulher que tanto amara, não passava de cruel pessoa. A dor era muito forte. Tão forte que Henry deixou de fazer o que devia nessa hora: orar e entregar ao Pai todo o seu ser e toda a sua dor, por mais dolorida que fosse.

Chegou o verão e, com ele, o dia do julgamento de Henry. Todos estavam apreensivos. A equipe espiritual, a postos, demonstrava profunda tranquilidade enquanto os encarnados estavam inquietos.
No tribunal, cada qual ocupou seu lugar. O réu foi trazido por dois guardas, algemado, cabisbaixo. Ao vê-lo, a emoção tomou conta daqueles que por ele tinham afeição.
Em seu leito de hospital, Eliza sentia-se inquieta. Ambrozina, no dia anterior, dera-lhe a notícia do julgamento. Tudo pronto, só faltava o juiz que, por sorte, seria o juiz habitual da região.
Meia hora de espera e o juiz não chegou. Uma hora, uma hora e meia e os ânimos começaram a ficar acirrados.
Um mensageiro adentrou a sala, trazendo o seguinte comunicado:
─ O Senhor juiz, responsável pela sessão neste tribunal, infelizmente acabou de falecer em sua residência. A causa da morte ainda é desconhecida, mas, tudo leva a crer que sofreu abalo cardíaco. Fica, portanto, adiado este julgamento até que as autoridades responsáveis definam outra data.
Alívio absolutamente inesperado para uns e mais angústia para outros.
A equipe espiritual formou uma roda, cada um com as mãos no ombro do outro, como se fizessem parte de um só coração. Após isso, ajoelharam-se com as mãos estendidas para o alto, num gesto de agradecimento profundo ao Pai e ao Mestre, luzes de toda a existência.
Margareth, abraçada ao Reverendo Nicos, chorava aliviada e ele, por sua vez, entregou-se a aquele abraço que tanto bem lhe fazia. Sentia-se abraçado no corpo e na alma como se aquele abraço fosse um momento de descanso e de paz profunda de seu espírito.
Henry sentiu-se desfalecer como se um grande conforto tivesse chegado. Em seu íntimo, agradecia a Deus e à filha amada e querida, pelo adiamento de seu julgamento, mesmo que o motivo fosse tão triste.
Ava, por sua vez, agitou-se muito como se quisesse livrar-se logo de uma responsabilidade à qual ainda não se sentia totalmente preparada. Com o passar dos dias ela compreenderia o enorme bem que o adiamento do julgamento lhe faria.





A REGRESSÃO DE ANANDA

Nesse ínterim, as dores da guerra espalhavam-se pela Europa. A energia que pairava no ar era densa, dolorosa. A guerra também trazia a fome, a doença, o ódio, a perda. Fardos de peso extremado que a humanidade há de, alguma forma, ter de expurgar.
Nas mãos de homens enlouquecidos tombaram muitos destinos. Choraram mães, padeceram filhos, enlouqueceram pais, abortaram-se novos espíritos frustrando chances, demorando-se os reajustes.
Em Deus não se pensava, de Jesus fora esquecida a palavra e, nesta soma, jazia o ser humano.
Pobre Europa que de primeiro mundo leva o título. Há de sofrer em seu íntimo toda a dor e loucura que espalhou.
Desses e de outros tantos horrores, muitos de nós, espalhados pelo mundo, temos dívidas a saldar.
Terremotos, terrorismo, calamidades envolvendo coletividades, rebeliões, famílias em desarmonia, jovens enlouquecidos são o saldo infeliz de todo o mal que se fez.
Agradeça a Deus aquele que ama a tudo e a todos. Este é feliz.

Durante o espaço de tempo que a equipe espiritual teria para voltar a se dedicar a Henry, muito trabalho foi por eles realizado em prol das vítimas da dor e do sofrimento.
Onde a guerra deixou poças de sangue e de ódio, lá eles atuaram, curando feridas do espírito, encaminhando muitos a hospitais espirituais. Trabalharam com amor e dedicação. Lamentaram por aqueles que insistiam em se demorar no ódio, no apego ao corpo físico negando a morte do corpo e querendo ainda continuar a batalha. Era com dor no coração que viam irmãos enlouquecidos a vagar em meio a corpos já em estado de decomposição, querendo que os mesmos se levantassem e continuassem o que já não podiam mais continuar. A dor era cega e o alívio tardaria a chegar.
Finda essa etapa do trabalho, Frida e Augustus, responsáveis pela Missão das Quatro Estações, concluíram que a hora da verdade total era chegada para Ananda, chamaram-na para uma conversa:
─ Irmã nossa, é chegada a hora da revelação. Até aqui lhe foi permitido ter uma visão quase que superficial sobre tudo o que lhe ocorreu.
Ananda sentiu frio intenso a percorrer-lhe todo o ser. Armou-se de coragem e fé, dizendo:
─ Seja feita a vontade de Deus, estou pronta meus amigos.
─ Muito bem. – Disse Frida - Voltemos ao local de seu desencarne, coragem irmã, vamos até lá ver o que realmente aconteceu. Força.
Ananda sentiu a necessidade de concentração total, em estado de prece e de elevação de pensamento, seguiu seus instrutores até o penhasco, palco de sua morte física.
─  Ananda. – Chamou por ela Frida com voz firme e enérgica –
─ Lembre-se agora de como se deu a sua queda. Lembre-se dos detalhes do dia que passou, enfim, lembre-se de tudo, agora.
Ananda, joelhos postos sob o penhasco, pouco a pouco, começou a lembrar-se:
─ Sempre amei a neve. Aqui de cima então, que beleza era ver sua brancura, como ela tingia de branco todas as cores. Era tão bonita! Era por admirar essa beleza, por Deus provida, que eu sempre vinha até este penhasco. Fosse primavera, verão, outono ou inverno, tudo era sempre tão belo! Este era meu recanto. Aqui eu me encontrava com Deus. Aqui eu dirigia a Ele minhas preces. Aqui eu encontrava a mim.
Lembro-me de Dona Manoela. Ela vive aqui perto. Várias vezes encontrei-a pelo caminho. Ela gosta de colher flores. Gosto dela.
Fazia muito frio naquele dia. Eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa. Meu pai gostava de andar na neve, eu também. Minha mãe não gostava muito dessa ideia, mas nos respeitava o gosto.
Papai saíra para caminhar. Ele gostava de caminhar e, quando se cansava, parava para ler. Ele gostava de ler.
Olhando pela janela, senti enorme vontade de ir até o meu recanto no penhasco. Agasalhei-me bem, olhei nos olhos de minha mãe, abracei-a fortemente, beijei-lhe as mãos sentindo uma emoção tão forte que não sei expressar. Agora entendo. Eu estava me despedindo dela.
Em meio à narrativa, Ananda deixou-se levar pela emoção, soluçando de dor e de saudade. Levou um tempo para reequilibrar-se e continuar com suas lembranças:
─ Caminhei devagar sentindo o frio que quase congelava o meu rosto. Pelo caminho tudo era deserto, não havia uma só pessoa, nem mesmo um animal. Tudo era silêncio e vida ao mesmo tempo porque se podia ver a fumaça que saía das chaminés das casas, sentir o doce aroma do alimento que estava sendo preparado. A vida pulsava naquele deserto branco e falava naquele silêncio. Senti em meu coração, ali, naquele momento, a grandiosidade das bênçãos de Deus que a tudo e a todos ampara e, pensando assim, caminhei mais feliz e emocionada, eu sentia alegria, gratidão e um amor profundo por tudo o que me rodeava.
Cheguei ao meu recanto com a alma em estado de graça, sentei-me, orei. Não percebi, devido à minha profunda concentração, os passos que de mim se aproximavam. Quando dei por mim, ali na minha frente, havia uma pessoa que me olhava duramente, amargamente. Levantei-me e, com educação, cumprimentei essa pessoa que não consigo visualizar bem o rosto.
─ Esforce-se, concentre-se. – Disse Frida com autoridade –
Alguns minutos se passaram até que Ananda mudou bruscamente a expressão de seu rosto, estava absolutamente espantada, amedrontada.
─ Posso ver agora, conheço essa pessoa.
Resolvi perguntar o que fazia ali sem obter resposta. Apenas seus olhos brilhavam exprimindo um ódio tão profundo que foge completamente à minha compreensão. Não consegui compreender aquele olhar. Estaria louca aquela pessoa? Senti medo, corri. Ouvi passos correndo atrás de mim e uma voz que gritava:
─ Eu a odeio, odeio. Agora é a hora, vou me livrar de você.
─ O medo me cegou, eu corria sem saber para que lado ir até que me vi a poucos passos da ponta do penhasco,cuja altura era algo aterrador. Sem que eu pudesse olhar para trás, senti em minhas costas forte pressão de mãos que me empurravam, tentei me equilibrar, tentei falar, mas só o vazio veio. Caí. Senti um horror profundo, fechei os olhos, chamei por Jesus enquanto sentia fortes pancadas por todo o meu corpo. Não senti mais nada, nem a derradeira dor. Dormi.
Novamente Ananda interrompeu as lembranças soluçando e se perguntando:
─ Por quê? O que eu fiz a essa pessoa para que fizesse isso comigo? Será que mereci?
Augustus e Frida trataram de acalmar Ananda. Reconfortaram-na com passes magnéticos e fluídos calmantes.
Fredy assistia a tudo emocionado, chorando muito.
Ananda acalmou-se retomando as lembranças:
─ Acordei no hospital. Vi meu espírito e o meu corpo separados. O Reverendo Nicos pôde me ver. Isso foi bom.

Ananda conhecia agora o rosto de quem lhe havia tirado a vida. Reviveu seus momentos de aflição até chegar à espiritualidade, mas outras revelações ainda viriam muito esclarecimento ainda haveria de chegar e muito trabalho ainda deveria ser feito dentro do curto espaço de tempo de quatro estações.





DÚVIDAS DO REVERENDO NICOS

Agradecido a Deus, a Jesus e à espiritualidade que vinha pouco a pouco aprendendo a conhecer, o Reverendo Nicos, em seus aposentos, meditava:
─ Se a vida continua meu Pai, posso ter notícias de Ananda? Quem pode me ajudar nesse sentido? Não conheço ninguém que abrace a fé dos Espíritos. Gostaria tanto de saber como ela está e o que me aconselharia a fazer quanto ao caso de seu pai.
Em meio a esses pensamentos, o Reverendo adormeceu e sonhou. Sonhou que Ambrozina, a negra que tanto espanto lhe causara, seria a pessoa que o poderia ajudar a ter notícias de Ananda. No sonho, foi-lhe dito que ela tinha fé na Doutrina dos Espíritos e que ele a procurasse.
O Reverendo acordou assustado, porém, atento à mensagem. Pensou:
─ Será? Bem, creio que devo levar este sonho em conta, foi como se eu realmente tivesse estado em outro lugar que não fosse a Terra. A voz que ouvi era real, posso ainda sentir o timbre. A reconheceria em qualquer ocasião.
Pela manhã, o sonho ainda era imagem viva na mente do Reverendo que, após sua rotina matinal, dirigiu-se ao hospital a fim de visitar alguns doentes que há algum tempo já não via. Lá chegando, o “acaso” fez com que ele encontrasse Ambrozina. Sua surpresa foi grande. Sentiu um forte arrepio a percorrer-lhe todo o corpo ao lembrar-se do sonho. Mentalmente pediu amparo a Jesus e foi falar com a mulher:
─ Bom dia, Ambrozina, como tem passado?
─ Sua benção, Senhor Reverendo. Tenho passado bem, obrigada. E o senhor? Muito trabalho com a igreja?
─ É um trabalho que faço com amor e, graças a Deus, tenho trabalhado bastante. Como vai o Senhor Ivan?
─ Vai bem. Só a Senhorita Ava que anda um tanto nervosa.
─ Nervosa? Deve ser por conta do adiamento do julgamento de Henry, não é mesmo?
─ Penso que sim, Reverendo. Este trabalho é importante para ela. Tenho tentado aconselhá-la a manter a calma, mas ela está insegura.
─ Vou fazer-lhe uma visita. Quem sabe eu consiga passar alguma segurança a esta jovem tão caridosa.
─ Será um prazer, Reverendo. Falo em nome de todos que muito o estimam na casa do Senhor Ivan.
─ Obrigado. Diga-me uma coisa, onde você nasceu?
─ Na África, Senhor.
─ Você frequentava a igreja lá?
─ Não Senhor, lá a nossa fé é um pouco diferente da fé de vocês daqui, muito embora amemos a Deus e a Jesus.
─ Pode me contar como é a sua fé?
─ O Senhor se interessa por aquilo que não seja o catolicismo?
─ Certamente que sim, penso um pouco diferente de meus colegas padres. Esse será o nosso segredo, está bem?
Ambrozina rindo respondeu:
─ Sim Senhor.
─ Bem, como já disse, temos fé em Deus e em Jesus. A diferença é que cremos que eles enviam mensageiros à Terra para que possam nos auxiliar a cumprir seus ensinamentos. Cada um desses mensageiros cuida de uma parte da natureza e dos mais variados problemas do ser humano, ou melhor, cada um tem um trabalho específico, por isso, a cada um deles oferecemos cultos de agradecimento, rogando o seu auxílio sempre que necessitamos e, é claro que, antes de tudo, pedimos a permissão de Deus e de Jesus para que possamos trabalhar com eles. Nosso trabalho é sempre pelo bem, pela paz e pela harmonia das criaturas. Existem na África aqueles que se valem de nossa crença para trabalhar no mal, mas esses são logo identificados e quem estiver realmente procurando o bem, deles se aparta tão logo suas intenções fiquem claras. Isso não leva muito tempo.
─ Não entendi porque pessoas se valem de uma fé tão pura e bela pelo mal. Pode me explicar, Ambrozina?
─ Sim, não sei se o Senhor vai entender, mesmo assim vou tentar explicar. Esses mensageiros, dos quais lhe falei, são espíritos que vivem com Jesus na Eternidade. Espíritos que têm a missão de auxiliar outros espíritos que ainda estão aqui na Terra, ou seja, nós, os seres humanos de carne. Cremos que, independentemente do ser material, somos, antes de tudo, um ser espiritual que quando morre para a Terra, sobrevive em espírito na Eternidade, voltando a encarnar quantas vezes se façam necessárias para que os erros cometidos, nas diversas encarnações, sejam reparados e nosso ser espiritual, assim, possa se purificar rumo ao objetivo maior que é o aperfeiçoamento que nos aproxima do Pai Criador.
Há de se ter cuidado, no entanto, com os espíritos brincalhões que ainda não se encontraram que ainda sentem prazer nas coisas do mundo, ou seja, que ainda não compreenderam sua real posição. Daí os casos de adivinhações, promessas e tantas outras coisas que servem apenas de ilusão àquele que ainda está cego pela matéria. Deu para entender?
─ Mais ou menos. Segundo a sua fé, morremos e vivemos muitas vezes. Simplificando, é isso?
─ Assim o Senhor está simplificando muito, mas, é quase isso, sim.
─ Diga-me mais uma coisa Ambrozina. É possível entrar em contato com pessoas que já morreram?
─ É sim. Eu não acredito que o Senhor possa se convencer disso, a menos que uma prova contundente lhe seja dada, não é mesmo?
─ É. Tenho uma opinião formada: só devemos crer naquilo que é verdadeiro e, para que se tenha certeza da autenticidade das coisas, é preciso que elas nos sejam claramente provadas. Como um cálculo matemático, digamos assim.
─ Entendo. Vá até a casa do Sr. Ivan qualquer dia desses, lá poderemos continuar essa conversa e, quem sabe, essa prova lhe chegue, Reverendo.
─ Irei com prazer, Ambrozina. Foi bom revê-la e obrigado pela conversa.
─ Não tem de que Senhor. Sua benção.
─ Que Deus a abençoe minha irmã. A propósito, veio visitar alguém em especial aqui no hospital?
─ Vim Reverendo, todo doente necessita de carinho, principalmente o doente da alma. Estive aqui para, em nome de Deus, tentar ajudar um desses doentes. Até breve.
O Reverendo, diante de tamanha força e clareza, olhava com respeito aquela mulher negra que se distanciava pela rua, pensando:
─ Senhor, será ela um anjo por Ti enviado?

Criado dentro do catolicismo e vivenciando-o como Sacerdote, tudo ainda era muito novo para o Reverendo Nicos. A leitura não era suficiente. Agora necessitava de provas.





UMA PROVA

Era dia de festa na igreja. Comemorava-se o dia de um Santo de Devoção dos fiéis. Mesmo o país estando em guerra, aquela pacata cidade insistia em festejar.
O local escolhido para a festa era sempre a praça que se situava em frente à igreja. O Reverendo Nicos havia rezado a missa e, junto aos fiéis, foi para a praça festejar. Tudo transcorria bem até que vários soldados alemães surgiram cercando a praça e, consequentemente, os fiéis. Ao deparar-se com tal situação, o Reverendo procurou entre eles o líder. Não houve tempo para conversa. Os soldados começaram a atirar para cima, queriam que as pessoas se dispersassem saindo dali. A correria e o pânico foram gerais. Ninguém compreendia o que estava acontecendo. As pessoas mal conseguiam pensar, apenas corriam e gritavam. O Reverendo Nicos avistou Margareth em meio à confusão, tentou chegar perto dela, apressou o passo quando percebeu que um dos soldados apontava a arma na direção dela. O Reverendo alcançou Margareth no exato instante em que o covarde soldado disparou sua arma em meio às pessoas.
Abraçado à Margareth, o Reverendo sentiu forte impacto nas costas, sentiu que suas forças estavam fraquejando, que sua visão foi ficando turva até que desmaiou caindo sobre uma grande poça de sangue.
O pavor tomou conta das pessoas assim como a indignação. Um dos soldados, provavelmente o líder, aproximou-se do Reverendo caído gesticulando e falando uma língua por todos incompreendida. Imediatamente após a sua aproximação, uma maca chegou trazida por soldados que nela colocaram o corpo ferido do Reverendo, levaram-no depressa ao hospital sendo seguidos por muitos fiéis que ainda por ali se encontravam. Margareth estava em estado de choque, também ela teve de ir para o hospital devido ao abalo que sofreu.
A revolta passou a ser o sentimento geral entre os fiéis que, do lado de fora do hospital, gritavam clamando por justiça.
Deu-se então outro confronto entre os soldados e os fiéis, mas, desta vez, sem feridos.
O Reverendo foi socorrido e medicado. Os médicos e os enfermeiros estavam chocados com a violência gratuita dos soldados, também entre eles o sentimento de revolta e indignação era forte.
Pouco tempo fazia que o Reverendo havia sido socorrido quando o delegado Orestes chegou ao hospital, também ele revoltado. Fez várias perguntas, até que resolveu ir falar com o soldado que parecia o líder. Buscou entre as pessoas que ali estavam um intérprete e foi-se.
O soldado explicou ao delegado que o disparo havia sido acidental, que a intenção deles era apenas a de dispersar a reunião, pois não podiam admitir, na qualidade de dominadores daquele país que grupos de pessoas se formassem em praça pública ou em qualquer outro lugar. Abriam exceção apenas à igreja, porém dentro de seu recinto, não na rua. O delegado teve de compreender, de qualquer forma não deixou de ressaltar que o soldado que efetuou o disparo cometeu um crime, pois não cumpriu à risca a ordem de apenas atirar para o alto. O líder respondeu com evasivas, deixando claro que aquilo era problema deles e que seria resolvido entre eles.
O delegado sabia que não poderia enfrentar aqueles homens e que por esse crime o soldado responderia em outra ocasião, se respondesse, pois isso não era lá muito certo que fosse acontecer. A impunidade em tempos de guerra é comum, infelizmente.
O estado de saúde do Reverendo era grave. O tiro que recebeu nas costas perfurou-lhe um dos pulmões. O hospital, devido à guerra, encontrava-se em condições precárias. O Reverendo necessitava de cirurgia de emergência e o material do qual o hospital dispunha era insuficiente. Devido à carência de recursos e à demora do atendimento, o Reverendo entrou em estado de coma, complicando-se mais ainda o seu quadro, pelo menos sob o ponto de vista médico.
Enquanto médicos e enfermeiros desdobravam-se em angariar recursos para o atendimento necessário ao Reverendo, este lentamente desprendia-se do corpo sob assistência da equipe espiritual que contava com o auxílio de um médico bastante experiente nestes casos.
Ao ver-se fora do corpo físico, o Reverendo mesclou sentimentos. Medo, alívio, interrogação. Até que foi assistido pela equipe espiritual ali presente e se acalmou. Aos poucos foi abrindo seus olhos espirituais e a primeira pessoa que viu foi ela: Ananda.
─ Minha querida, é você mesmo?
─ Sim Reverendo, aqui estou. Sinto-me feliz em poder falar-lhe e triste ao mesmo tempo pelas circunstâncias desse nosso encontro.
─ Do que fala menina?
Ananda, percebendo a falta de consciência do Reverendo, tornou a falar-lhe mansamente:
─ Descanse ainda mais um pouco. Em breves minutos conversaremos com mais clareza. Confie em mim.
Refeito da emoção, o Reverendo pôde ver com mais clareza tudo o quanto se passava. Teve medo, pensou-se morto. Nesse instante, Ananda passou a explicar-lhe a situação. Surpreso e profundamente emocionado, o Reverendo ajoelhou-se dirigindo a Deus calorosa prece comovendo a todos.
─ Então é verdade. Há vida além da morte. Isso é maravilhoso!
─ Reverendo. – Chamou Ananda, energicamente. – Não temos muito tempo, logo o seu corpo físico será restabelecido e o Senhor deverá voltar. Fez-se necessário trazê-lo até aqui para que suas dúvidas fossem esclarecidas. Vivemos, sim, além da morte física. Somos espíritos eternos, que têm encarnações sucessivas, como o Senhor tem tido a oportunidade de saber através das leituras a que tem se dedicado. Essa graça lhe foi concedida por merecimento e porque necessitamos muito de seu auxílio. Eu e meus amigos sabemos que meu pai é inocente, sei quem interrompeu minha vida física e posso assegurar-lhe que não foi meu pai. Lute conosco para provar a sua inocência e, por caridade, esteja sempre próximo à minha mãe.
─ O que me pede, anjo de Deus, não é novidade para mim, prometo ajudar e orar muito.
─ Sabemos disso e confiamos no Senhor. Quando acordar na Terra, o Senhor se lembrará desse nosso encontro. Essa lembrança fortalecerá sua fé e confiança. Que Deus o abençoe e que Jesus o ampare querido amigo.
─ Amém. – Respondeu o Reverendo. Ainda bastante emocionado voltou a adormecer.

Ananda experimentara um carinho enorme pelo Reverendo durante todo o tempo em que trabalhou para que ele pudesse vir ao mundo espiritual. Desconhecendo a procedência de tamanho afeto, procurou esclarecimento junto a Frida e Augustus:
─ Ainda não é o momento. É certo que o seu sentimento tem fundamento. Por ora deixe que esse sentimento flua com pureza. Unamo-nos agora em nossa missão. Concentremos nossos esforços ao que nos foi concedido vir.

Ananda se sentiu amparada e confiante. A equipe retomou o trabalho.

De volta ao corpo físico, o Reverendo, após sair do coma, sentia dores atrozes a atormentar-lhe a carne frágil. Providências foram tomadas para a cirurgia de emergência, recursos para tal intervenção chegaram àquelas paragens como que por “milagre” em auxílio ao Reverendo.
Médicos encarnados e desencarnados trabalharam arduamente para salvar a vida do Reverendo Nicos. Tiveram êxito. A cirurgia correu bem e o paciente respondia a contento ao tratamento pós-operatório.
Margareth, durante todo o tempo no qual o Reverendo correu risco de vida, manteve-se no mais profundo estado de oração. Agora já respirava aliviada e agradecida a Deus, a Jesus e aos seus Santos de devoção pela melhora de seu amado. O encontro dos dois após o fatídico dia do acidente foi algo profundamente emocionante e comovedor, mesmo porque o Reverendo fora atingido por entender que deveria salvar a vida daquela a quem muito amava. Riso e pranto, dor e alívio, carinho e amor verdadeiro. Podemos resumir assim o reencontro de Margareth com o Reverendo Nicos.
Recuperado quase completamente, requerendo ainda alguns mínimos cuidados, o Reverendo pôde se lembrar de sua viajem ao mundo espiritual e, ainda um tanto incrédulo, foi aos poucos, relembrando com clareza seu encontro com Ananda.
Já de posse total de sua capacidade mental, o Reverendo teve certeza de que havia “morrido” por algum tempo e de que havia estado realmente do outro lado da vida, como dizia Allan Kardec. Sentiu seu coração tomado de enorme felicidade e confiança. Chorava, agradecia, ria e bendizia a vida e suas dores, sabendo com certeza agora que a vida física é passageira. Certo da continuidade da vida em outra dimensão, o Reverendo sentiu uma vontade enorme de ver Ambrozina. Assim que fosse possível, iria vê-la e falar com ela sobre sua experiência, sobre a prova que tanto desejava ter.
Liberado pelos médicos, o Reverendo saiu do hospital rumo a sua morada, a igreja simples da praça. Amigos e fiéis reuniram-se em festa pela recuperação do Reverendo, entoando cânticos de graça e de louvor a Deus. Feliz pela manifestação de carinho e apreço, o Reverendo caminhava confiante, ou melhor, muito mais confiante agora. Entre sorrisos, apertos de mão e abraços, o Reverendo foi se aproximando de “sua” igreja e, ao chegar diante dela, ajoelhou-se chorando. O povo pensou que o Reverendo estivesse tomado pela emoção do retorno, mas, na verdade, ele entendia enfim, o engano, a tristeza da religião por obrigação.
Em sua mente relembrou os “fiéis” bem vestidos, perfumados, dispostos a participar da liturgia, porém, de olhos atentos nos outros irmãos, verificando-lhes a roupa, o perfume e até os seus olhares. Fiscais de calçados “compadeciam-se” daqueles que usavam o mesmo por meses a fio pensando: “Coitado, deve estar passando dificuldades. Ah, mas ele se arranja”.
Deus não está na pompa dos altares. Está nas flores, na natureza. Está em nós nos momentos em que conseguimos amar de verdade, despojados de interesses. 
Ainda sob o efeito de forte emoção, o Reverendo abriu a porta da igreja, sabendo que dali para frente nunca mais seria o mesmo. Mentalmente pediu pelo amparo de Deus, pelo amor de Jesus para continuar com dignidade seu santo ofício, agora totalmente transformado e fortificado. Rogando por auxílio, sentiu suave mão a tocar-lhe o ombro e sentiu que forças novas viriam em seu socorro, que nunca mais estaria sozinho em sua caminhada. Ânimo renovado invadiu seu peito. Sua fé agora se tornara mais consistente e segura. Sorrindo, percorreu toda a área da igreja até chegar a seu aposento modesto e acolhedor.
Sentia sua alma leve e forte. Sentiu paz. Na manhã seguinte, tomado por um impulso irresistível, o Reverendo foi falar com Ambrozina sentindo-se muito feliz por poder compartilhar com alguém sua mais bela experiência de vida.
Ao abrir a porta, Ambrozina sorrindo, recebeu acolhedoramente o padre amigo:
─ Entre, por favor. Deseja falar com alguém?
─ Sim. Com você mesma. Pode ser?
─ Claro que pode, vamos até o jardim.
O jardim da residência do Senhor Ivan era belíssimo. Absolutamente em harmonia com o assunto que levara o Reverendo até lá.
─ Veja Reverendo, podemos notar que o outono se aproxima.
─ Como?
─ Veja estas plantas aqui. – Ambrozina apontou para um canteiro bem cuidado.
─ Pode perceber?
─ Não, nada vejo.
─ Repare nas pontas da planta.
─ Estão um tanto avermelhadas.
─ É isto. Quando elas atingem esta coloração é porque o outono em breve chegará.
─ Você é sábia, irmã.
─ Longe disso, conheço apenas o que me foi ensinado.
─ Logicamente que aprendeu bem as lições.
Ambrozina encabulada “deu de ombros” ante a afirmação carinhosa de seu novo amigo.
─ Vamos ao assunto que me trouxe até aqui. Não preciso mais daquelas provas das quais falamos, lembra-se?
─ Claro que me lembro. O que aconteceu?
─ Durante o tempo em que estive no hospital e entrei em estado de coma, recebi a graça de estar com Ananda do outro lado da vida. Ambrozina, eu pude ver meu corpo separado de meu espírito, foi fantástico, emocionante, lindo. Foi tal e qual quando a vi separada de seu corpo e, naquele instante, não consegui compreender o que se passava, mas, agora que eu mesmo vivenciei a experiência, sei bem que o que vi era real.
─ Do que fala Senhor?
O Reverendo passou a relatar à amiga seus segredos jamais revelados:
A aparição de Ananda, a obra de Allan Kardec e sua experiência extra física, nada do que lhe foi dito surpreendia Ambrozina que ouvia com atenção.
─ Reverendo seu trabalho como Sacerdote é digno. Mesmo se o Senhor jamais tivesse tido tais revelações, ainda assim, esteja certo de que possui espírito elevado e condizente com os ensinamentos de Jesus.
─ Felizmente Ambrozina, sinto, dentro de mim, que sempre fiz o possível para desempenhar verdadeiramente meu papel, malgrado as normas do Vaticano e do clérigo em geral.
─ Isso é o que importa. A consciência tranquila é nosso mais acolhedor refúgio.
Os novos amigos encerraram a conversa felizes pela oportunidade que tiveram de partilhar sua fé.





A REGRESSÃO DE ELIZA

O outono se aproximava. A cada nova estação, Ananda se sentia apreensiva:
─ Amigos, em breve será outono, devo confessar minha preocupação.
─ Devo dizer-lhe irmã que, ao invés de preocupar-se, você deveria agradecer e ser mais confiante. Veja como tem sido frágil sua fé. Recolha-se um pouco na prece e fortaleça-a.
─ Tem razão Augustus, sou uma aprendiz difícil não é mesmo?
─ Nem tanto. - Respondeu Augustus sorrindo –
Enquanto Ananda recolhia-se na prece, o restante da equipe, a pedido de Fredy, foi até Eliza.
Encontraram-na banhada em suor, assustada, ainda estava no hospital.
Espíritos ainda não esclarecidos que se comprazem no mal, rondavam o ambiente, ávidos por levarem-na para junto deles.
Diante de tão triste cenário, a equipe, comovida, pedia por ela e pelos irmãos cegos ainda pelas imperfeições dos sentimentos. Aos poucos, o ambiente foi se transformando, Eliza se acalmou, os espíritos endurecidos cederam diante da luz que a equipe passou a irradiar.
O dia amanheceu belo e calmo. Com ele, Ambrozina chegou para visitar Eliza. Percebeu a presença da equipe agradecendo mentalmente o auxílio àquela alma tão enferma e necessitada. Rogou ainda por esclarecimento quanto ao que deveria fazer para efetivamente ajudá-la. A resposta veio imediata. Ambrozina absorveu as instruções prometendo colocá-las em prática a partir daquele instante.
Fredy sofreu muito ao constatar as condições da irmã, mas contava com o amparo de espíritos elevados para compreender e suportar a dor. Afinal ela era a grande responsável por todo aquele sofrimento.
Certos de que Eliza encontrava-se em boas mãos, foram-se para junto de Ananda.
─ Olá Eliza, como se sente hoje? – perguntou Ambrozina –
Ao ouvir estas palavras, pronunciadas com tanto carinho e atenção, Eliza chorou como há anos não ousava fazer devido ao endurecimento de seu coração.
─ Fale comigo, nada me chocará. Quero apenas poder ajudar, fale, pode confiar em mim. Nada do que me disser sairá daqui comigo, por pior que seja. Confie. Precisamos desta confiança. Deus, que é sábio em seus desígnios, coloca sempre à nossa disposição uma mão amiga.
Surpreendida pelo carinho e pela confiança que a negra Ambrozina transmitia, Eliza passou a relatar sua vida de amor e de ódio, seus crimes perversos e toda a dor que deles vinha sentindo os efeitos.
Habilmente, Ambrozina conduziu a conversa de forma a fazer com que Eliza compreendesse que o arrependimento verdadeiro era necessário. Explicou-lhe sobre a vida após a morte e sobre o processo reencarnatório. Eliza ouvia atentamente cada palavra pronunciada por Ambrozina
De repente Ambrozina deu-se conta de que necessitaria fazer com que Eliza regredisse a tempos passados para compreender melhor toda a situação na qual se encontrava. Eliza necessitava de esclarecimentos mais profundos para que o mal não a vencesse nessa encarnação por completo, uma vez que ela havia já se comprometido muito devido à sua invigilância e ao seu ódio.
Ambrozina explicou a Eliza sobre o processo de regressão e perguntou se ela desejava submeter-se a ele esclarecendo ainda que, para o sucesso de tal prática, necessitariam de permissão do Alto.
Eliza concordou prontamente e compreendeu que se não fosse possível, saberia entender. Procuraria outros caminhos que a pudessem levar à reparação de seus atos vis.
Confiante e feliz, Ambrozina prometeu vê-la no dia seguinte, com a resposta sobre a regressão.
Aliviada, Eliza passaria um dia em paz, como há muito não passava.

O outono já dava o ar de sua graça em Antuérpia, mas o povo sofrido mal percebia sua chegada.
Na prisão, Henry sofria com a demora da marcação de seu novo julgamento. Sentia saudade de casa, de Eliza, de Margareth, enfim, sentia saudade da vida. Perguntava-se frequentemente sobre o porquê de tanto sofrimento, de tanta injustiça. No auge de sua dor e desespero, muitas vezes pediu a Deus que interrompesse sua insípida vida sem saber que Deus nunca castiga que nosso sofrimento é fruto da má semente que um dia plantamos e, consequentemente, colhemos seus frutos, sejam eles doces ou amargos.

A insegurança de Ava crescia a cada dia, o desafio ao mesmo tempo em que a fascinava, a amedrontava. Todo o material de que dispunha estava há muito pronto. A demora da marcação do novo julgamento a angustiava. Não havia nada mais a fazer senão esperar. Entendia que todas as provas, todos os argumentos já haviam sido reunidos e explorados. Se ao menos conseguisse algo mais! Pensava Ava esperançosa.
Percebendo a aflição da moça, Ambrozina aproximou-se:
─ O que a preocupa tanto, senhorita?
─ É a demora da definição do novo julgamento de Henry, sinto-me ansiosa, Ambrozina. Tudo o que tenho para defendê-lo é pouco. Terei de ser muito hábil e persuasiva para conseguir provar a inocência do pobre homem.
─ A senhorita crê em sua inocência?
─ Devo confessar que quero muito crer, que a impressão que ele me passa é a de um inocente em potencial, mas, sinto alguma coisa no ar que não consigo definir. Há algo acerca de sua vida que ainda não consegui penetrar. Não compreendo Ambrozina, de onde vem esta impressão indefinível.
Ambrozina, ciente dos fatos, porém, momentaneamente impossibilitada de revelá-los, tentou encorajar a jovem advogada:
─ Saiba esperar sem ânsias. Confie no Pai Criador e no Mestre da Revelação. Seja firme nessa fé e certamente conhecerá o que ainda não conhece a respeito de Henry. Não esmoreça em tua luta. Confie mais em si e em teus esforços, do contrário, de nada valerão os teus estudos e os teus novos conhecimentos cristãos.
─ Você tem razão velha amiga. Você é a força da minha vida. Obrigada por encorajar-me. Obrigada por tua amizade e fidelidade, Ambrozina!

Na manhã seguinte Ambrozina foi ver Eliza, que esperava por ela ansiosamente:
─ E então, amiga? Poderemos fazer a tal regressão? Perguntou Eliza agitada.
─ Poderemos sim, recebi autorização e contarei com o auxílio de espíritos de luz para tanto, mas antes devo instruí-la quanto ao que acontecerá. Devo adverti-la sobre os perigos da prática. Durante a regressão, você reencontrará os seres amados e aqueles odiados. Lembre-se que, receber esta autorização, é um presente dos céus e que, nosso intuito principal é ajudá-la a compreender melhor esta tua existência e principalmente servirá para orientá-la quanto aos débitos que adquiriu na vida pretérita para que os erros passados não se repitam mais, muito embora você já tenha se comprometido muito com os atos que praticou. Saiba ainda que o arrependimento sincero e a vontade firme de acertar daqui para frente fortalecerão o teu espírito aliviando todas estas dores morais que você vem sentindo. Só obtive a permissão porque confio em teus honestos propósitos de acerto e, acima de tudo, porque Deus assim nos permitiu.
─ Compreendo o que você diz e afirmo que quero muito deixar de sofrer, quero muito mudar de atitudes, quero muito melhorar. Não aguento mais tanta dor. Eu quero meu Deus, eu quero Jesus!
Neste exato instante, em que Eliza se dirigiu sinceramente ao Pai e ao Mestre, luz de alta vibração invadiu aquele pobre quarto de hospital trazendo com ela os “delegados de Jesus”, ou seja, espíritos de elevadíssima luz. Ambrozina pôde vê-los e sentir a paz da qual eram portadores, profundamente grata, iniciou o processo de regressão.
Depois de imersa no sono, Ambrozina começou a induzi-la a regredir no tempo.  Embora o estado de sono profundo, Eliza se lembraria com detalhes tudo o quanto veria e sentiria.
A regressão corria bem, a assistência espiritual era atuante. Ambrozina percebeu a proximidade do objetivo da prática e se deteve naquele ponto com maior ênfase.
Eliza induzida começou seu relato:
– Éramos apaixonados. A vida era difícil, éramos muito pobres mesmo assim fomos viver juntos. Tivemos dois filhos. Queríamos a fortuna financeira mesmo que para isso tivéssemos que corromper trapacear. A ambição nos dominava. Nenhum bom plano nos chegava até que ela apareceu. Vivíamos de cidade em cidade qual ciganos devido à nossa má conduta, mas ali, naquela cidade, traçamos o nosso maior plano e sonhamos com a ventura de tempos fartos de dinheiro. O pai dela era rico e, como não éramos conhecidos naquela cidade, o plano seria de fácil execução. Por dinheiro sempre nos dispusemos a tudo.
Procuramos saber tudo a respeito dela. Ela amava um pobretão. Como ninguém mais se interessasse por ela, o pai estava disposto a dar-lhe a mão. Ai é que entrava o nosso plano, o metal nos fascinava, sonhávamos, fazíamos planos confortáveis.
Conseguimos boas roupas, bons disfarces e álibis para que ele se aproximasse daquela que representava o fim dos nossos problemas.
Quase conseguimos. Pelo menos o pai já havia concordado em dar a mão da filha ao “rico” fazendeiro que se apresentou como pretendente apaixonado. A moça sofreu muito. Ela amava o pobretão que, diante do poder do dinheiro, nada pôde fazer a não ser aceitar a triste sorte.
Um belo dia, porém, a irmã do moço pobre nos surpreendeu a trama. Ela nos viu juntos, ouviu nossa conversa, descobriu tudo. Fomos obrigados a mantê-la em cativeiro até o fim de nossos propósitos. Só não contávamos com sua fuga, que se deu dois dias após. O pânico nos assaltou o ânimo, procuramos pela moça sem sucesso, nos acusávamos um ao outro pela sua fuga, tentamos fugir em vão. Fomos pegos, julgados e sentenciados a morte sem ter com quem deixar os nossos filhos. Não posso me esquecer do olhar do mais velho. Ele nos odiou com todas as suas forças.
Nossa sentença foi morte em praça pública.
A moça que nos delatou se sentia cumpridora de fiel obrigação, exultou com a sentença que a nós se aplicaria. Vingou seu pobre irmão.
Morremos diante da platéia e dos nossos filhos. A dor e o ódio foram terríveis.
Descobri que embora o meu corpo tivesse sentido a dor e a aflição da morte, eu ainda vivia. O lugar era estranho. Eu estava só, procurei em vão meu companheiro. A escuridão sufocava e todo o meu ódio só clamava por vingança.
Não sei quanto tempo vivi assim, mergulhada em trevas profundas até que o meu companheiro apareceu. Falou-me de perdão e de coisas das quais não consegui compreender. Só sei que aceitei seguir-lhe os passos e dormi. Não sei dizer mais nada. Esqueci.
Satisfeita, Ambrozina iniciou o processo de volta de Eliza.
Ao despertar Eliza se sentia atordoada, confusa. Aos poucos foi lembrando com clareza todos os detalhes vividos, toda sua dor, todos os erros que cometera e que ainda vinha cometendo. Desesperada, chorou muito, pediu perdão, arrependeu-se.
Sabia que o caso exposto era apenas um dos tantos golpes que ela e o companheiro haviam desferido contra pessoas íntegras e inocentes.
Ainda sob o efeito de forte emoção, Eliza perguntou a Ambrozina:
─ E agora? O que posso fazer?
─ Antes de qualquer coisa peço que se acalme, que relaxe, que procure orar e pedir perdão a Jesus.
Eliza obedeceu às recomendações da benfeitora.
Refeita das emoções da regressão, Eliza perguntou a Ambrozina quando deixaria de sofrer, quando melhoraria suas condições como pessoa, quando seria amada simplesmente, sem ter de trapacear, sem ter de se esconder, sem ter de fazer o mal. A tais perguntas Ambrozina respondeu prontamente:
─ Quando o seu coração verdadeiramente arrependido buscar o bem, buscar Deus e, por fim, perdoar.
─ Eu quero. Quero de verdade tudo isso que você me diz anjo bom. Obrigada.
─ Podemos começar esse processo agora, sabia?
─ Como? Diga-me como e eu o farei de coração.
─ Mesmo que tenha de enfrentar novas dores em nome da melhoria futura?
Entre lágrimas doloridas, Eliza respondeu que sim de forma decidida e confiante.
─ Muito bem, Eliza, está na hora de começar a reparação de tuas faltas. Devo adverti-la que precisará ser forte, pois novas dores virão. Apesar disso, agora você sabe que elas chegarão para o teu bem, para iniciarem dias melhores ao teu espírito eterno.
─ Sim, eu sei e quero, por Deus, eu quero.
Luz intensa inundou o recinto, mais um filho de Deus havia sido resgatado das garras do mal. O bem vencendo. O poder de Deus presente a abrigar mais um filho perdido. Louvores e agradecimentos foram entoados divinamente.





A CONFIANÇA DE AVA

O outono atingia o seu auge. As temperaturas começavam a declinar anunciando o inverno que batia às portas da região. O frio atingia também o coração de Ananda.
─ Preocupada filha? Perguntou docemente Frida.
─ Não posso esconder, não é mesmo?
─ Não, não pode. Mais uma vez vou repetir para que a confiança e a fé se fortaleçam em seu íntimo. Além do mais, eu e Augustus estamos contigo, confie filha. Esta missão é um tesouro precioso para todos nós. Não podemos permitir que o desânimo nos atinja. Ele é cruel e traiçoeiro, vigie seu coração contra ele, você deve combatê-lo com todas as forças que puder.
─ Obrigada irmã. Espero com o tempo tornar-me como você e Augustus.
─ Não deseje isso porque você tem brilho e força próprios. Acredite mais em você.

Finalmente o novo julgamento foi marcado. Seria próximo ao final do outono. Mais uma vez os ânimos se agitaram. Os corações dos envolvidos passaram a bater com mais força.
Henry já cansado e sofrido sentia um misto de medo e alívio.
O Reverendo Nicos e Margareth uniram-se em preces mais frequentes. A ligação afetiva de ambos crescia confiante e sem máculas. Suas almas alcançavam a plena união, que é eterna. Esta certeza e força íntima os confortava e fortalecia. O amor verdadeiro é divino e repleto de beleza.
A equipe se comovia ao ver os dois e se unia a eles em oração profunda.
Foi num desses momentos que Ananda teve a maior e mais surpreendente revelação.
Em sua tela mental, viu e soube quem na verdade era o Reverendo Nicos.
Surpresa e confusa pediu auxílio aos amigos. Desta vez, porém, soube controlar muito melhor a emoção, mantendo-se no domínio da situação “absurdamente” nova para ela.
Com sorriso nos lábios e com o maior carinho e alegria pela sua reação mais amadurecida, Frida e Augustus aproximaram-se dela envolvendo-a em suave abraço.
─ Parabéns, querida! Viu como é bom amadurecermos as nossas reações? Mesmo que o fato nos choque e surpreenda, quando temos o controle das emoções tudo fica mais claro e mais fácil de compreender. Não é mesmo?
─ Sim, claro que é. Sinto-me feliz por isso e devo tudo a vocês, meus guias fiéis e amigos.
─ Devemos muito a você também, esteja certa disso. Nós te amamos.
─ Só me digam uma coisa. Há algo que eu possa fazer quanto a isso?
─ No momento não.
─ É que estou muito confusa, não consigo compreender bem os fatos.
─ Compreenderá. Os fatos lhe serão totalmente revelados oportunamente. É sempre assim, não é mesmo?
─ Sim, sei que é.
Tomados de profunda emoção, os amigos choraram e oraram juntos em perfeita comunhão de propósitos.

Ava não podia esconder sua ansiedade. Todos os dias lia e relia o material de que dispunha sobre o caso de Henry. Nada de novo lhe ocorria. Sentia que deveria contar apenas com o que possuía e com sua habilidade pensando: “Mas que habilidade? Será que possuo habilidade suficiente para encarar este caso?”.
A angústia começava a dominar seu coração inseguro quando Ambrozina, mais uma vez, fez-se presente com suas palavras e fé inabaláveis.
Ambrozina conseguia fortalecer o espírito vacilante de Ava.
─ Muito bem, amiga do meu coração, agora que suas palavras revigoraram meu ânimo, diga-me: devo encomendar um novo tailler para a ocasião?
─ Penso que sim, uma roupa nova sempre fortalece a auto estima das pessoas. Acho boa ideia, e que seja um belo tailler.
─ Vou agora mesmo escolher o tecido. Qual cor sugere?
─ Azul. Da cor do céu.
Ambrozina exercia forte influência no bom humor de Ava. Com poucas palavras, conseguia elevar-lhe o moral, a força, a confiança e a fé que nela própria eram inatas.
Ava saiu feliz em busca do tecido, esquecendo a angústia e a ansiedade de minutos atrás. Sabia que não estaria só no tribunal. Ambrozina lembrou-a do auxílio dos mensageiros de Deus. Ava pôde sentir-lhes a presença e os bons fluídos, entregando-se à confiança plena na Providência Divina e na inspiração dos espíritos por Deus enviados a todos aqueles que N’Ele crêem e pedem por ajuda de coração aberto às suas boas influências.






ESCLARECENDO FREDY

A equipe espiritual seguia tranquila quando um fato novo se deu, Fredy passou a angustiar-se muito pela irmã e a sentir necessidade de compreender melhor tudo o que a ela ocorrera, bem como compreender também o motivo pelo qual tivera uma morte tão brutal e sofrida. Somado a tudo isto, sentia enorme desejo de ter notícias do irmão que, embora frio e distante nos últimos tempos em que passaram juntos, era-lhe muito caro. Lembrava-se ainda da noiva, a esposa tão sonhada a quem entregara o coração. A dor chegava forte, a necessidade de maiores esclarecimentos o atordoava.
Cientes, Frida e Augustus passaram a trabalhar com ele. Realmente, a hora era chegada.
Fredy foi conduzido por Frida e Augustus à confortável sala, num plano do astral novo e desconhecido por ele.
─ Onde estamos amigos? – perguntou Fredy –
─ Estamos em uma das moradas que o Pai Maior, por caridade, nos permite o acesso.
─ É por acaso uma esfera superior àquela a que estamos habituados?
─ É sim. – Respondeu Augustus enquanto Frida, calmamente, passou a assumir o rumo da conversa:
─ Fredy, conhecemos suas angústias e necessidades mais recentes. Antes de esclarecê-lo, porém, devemos prepará-lo para as revelações que tanto o inquietam. Está de acordo e disposto?
Pego de surpresa e deixando transparecer a alegria e o alívio do momento, Fredy respondeu prontamente:
─ Sim, estou. Necessito de esclarecimentos. Como sabem, isso está me fazendo sofrer muito.
─ Sabemos, sim, irmão querido. Realmente a hora é chegada. – Disse Frida calma e confiante –
Deitado em confortável divã, Fredy aos poucos foi relaxando sob a orientação do casal até que chegou ao estado de mais profundo sono. Imagens passaram a descortinar-se em sua mente de forma desconexa até que se estabilizaram. Deu-se nesse instante, o início das lembranças de Fredy:
─ Vejo uma névoa espessa, vejo imagens que não compreendo.
Frida e Augustus, diante da afirmação, esforçaram-se por ajudá-lo a clarear as imagens que ele relutava em ver.
─ Sou ainda menino. Meus pais, embora não sejam ciganos, vivem de cidade em cidade. As pessoas não gostam deles. Eu sempre choro. Eu amo os meus pais e o meu irmão. Ele é diferente de mim, é nervoso. Eu sou mais calmo. Somos pobres, tudo é difícil. Nunca me queixo, mas eles querem ganhar dinheiro, desejam a riqueza. Ninguém se importa comigo, estou tão triste! Penso sempre que quando eu crescer, tudo será diferente. Terei uma vida melhor. Não gosto da vida que levo. Não me queixo nem digo nunca nada a ninguém sobre o que sinto. Estou sempre sozinho. Brinco com meus amigos imaginários, eles são bons, me ajudam a dormir. Tento me aproximar de meu irmão, mas ele está sempre ocupado e não me dá atenção. Algumas vezes, porém, me chama para brincar, nestes momentos consigo ser feliz.
Minha mãe e meu pai nunca nos dão atenção. Vivem preocupados com eles mesmos.
O pão não nos falta, mas o afeto, esse sim nos falta e muito.
É triste viver de cidade em cidade, nunca ter amizades duradouras. Sinto falta disso.
Meus pais brigam sempre. Acusam-se e, no mesmo instante, se beijam e se abraçam. Penso que tudo isso seja falsidade. Não acredito neste tipo de “amor”. O jeito deles me faz sofrer. Nunca sei o que posso dizer, nunca sei se estão bem e nem como vão reagir se eu pedir alguma coisa. Por isso, prefiro calar e aceitar o que eles me dão. Eles são violentos, tenho medo deles.
Um dia, passando por uma igreja, ouvi falar em Deus. Uma pessoa falava que Ele era bom, amoroso, que a tudo e a todos perdoava. Fiquei ouvindo mais um pouco e tive um enorme desejo de conhecê-lo.
Entrei na igreja ansioso. Não vi Deus. Procurei entre as pessoas, mas, nenhuma delas era Deus. Fui falar com o Sacerdote:
─ Senhor, posso fazer uma pergunta?
─ Claro que pode. - Respondeu solícito o sacerdote –
─ Onde está Deus? Eu preciso conhecê-lo. - Pensativo, o Sacerdote respondeu:
─ Deus está em todos os lugares o tempo todo. Deus está na natureza, nas forças ocultas. Ele está em tudo o que é bom e em tudo o que é belo mesmo que, à primeira vista, nos pareça injusto. Vou dar um exemplo. O que você acha de um vulcão em erupção?
─ Sei lá. Penso que seja assustador, só isso.
─ Assim é. No primeiro momento, a força de um vulcão, criação e obra de Deus, nos parece assustadora, mas se analisarmos os fatos como realmente são, entenderemos que a força devastadora do vulcão é necessária, que de suas cinzas o solo se renova e se transforma.
─ Desculpe, não entendi.
─ O que quero dizer é que o poder e a força são de Deus em tudo o que diz respeito à Terra, e isto nos inclui, pois somos parte de Sua criação.
─ Vejamos se entendi. Quer dizer que Deus dá a dor para depois nos mostrar onde encontrar o alívio?
─ Quase isso. Depois que Jesus veio nos esclarecer e orientar, o que Deus espera de seus filhos é que eles sigam a Sua Palavra, que foi dita através de Jesus.
─ Quem é Jesus?
O sacerdote percebeu a total ignorância do menino sobre a vida espiritual. Diante de tamanha sede de saber, conduziu o pequeno a uma sala reservada da igreja onde iniciaria um longo trabalho, o de evangelizar um irmão necessitado.
─ Posso lembrar agora que conheci Deus e Jesus através deste sacerdote. A partir daí, minha vida mudou.  Passei a compreender melhor a tudo e a todos. Passei a encarar a indiferença de meus pais para comigo de outra forma. Aprendi a amá-los como eles eram e, amar a Deus Pai antes de toda e qualquer coisa. Foi uma grande benção conhecer o lado Divino da vida.
Tudo ia muito bem até que um dia soube que meus pais estavam presos. A acusação que recaía sobre eles era grave. Senti o chão faltar sob meus pés e apelei para a Divindade. Confesso ter recebido alívio, força e conforto para poder passar por aquele momento terrível.
Meus pais foram condenados à morte pelo seu delito. Eu os vi morrer. Devo admitir que, naquele instante, duvidei da existência do Deus de amor que eu há pouco conhecera. Não fosse a presença de um “anjo” de luz que, no minuto derradeiro, aproximou-se de mim, conscientizando-me dos fatos, eu teria abandonado meu amor ao Pai Celestial. O anjo me ajudou a compreender as razões pelas quais tudo aquilo estava acontecendo. Meu espírito serenou e compreendeu mesmo sofrendo muito, mesmo dilacerado pela dor.
Sei agora quem era esse “anjo”. É ela, sim ela, a noiva que não pude desposar na última encarnação! Estamos juntos há tanto tempo...
Depois da morte de meus pais, eu e meu irmão fomos para um orfanato, sofremos muito no início, mas, com o tempo, tudo se ajeitou e passamos a amar verdadeiramente as irmãs de caridade que nos acolheram e nos ajudaram a vencer na vida. Tornamo-nos homens dignos e trabalhadores graças ao amor das irmãs.
Amigos compreendo claramente tudo agora. Compreendo e sou grato à providência Divina. Muito obrigado pela ajuda de vocês, amigos, irmãos meus. Deus seja louvado e nos abençoe.

Deus, em sua essência, não pode ser resumido. Podemos apenas fazer uma ideia, pálida, de que ele é amor puro, bondade infinita e Poder Absoluto que rege o universo. Desde o infinitamente pequeno, até o infinitamente grande. Nada acontece ou é sem que a sua vontade se manifeste, sem que a sua lei se cumpra.
Jesus esteve entre nós e, repetidas vezes, falou da suma grandeza do Pai, sendo, ele mesmo, a expressão mais próxima de como é Deus e de como suas leis devem funcionar.
Jesus veio ao planeta Terra para ser o nosso condutor, a luz que nos deve clarear, o Norte que devemos buscar.

A lei dos homens é, na maioria das vezes, falha. Porém, algumas destas leis são elaboradas pelo plano espiritual e, através da intuição, são levadas a efeito pelos homens de bem, já que a humanidade necessita de limites para que possa atuar e evoluir. Sem estas direções, nosso planeta se tornaria muito confuso.





O MENTOR

Entregue à solidão da cela fria, Henry aguardava o julgamento. A revolta inicial havia cedido lugar à reflexão. Rememorou sua vida até aquele momento e, apesar de tudo, teve de reconhecer que seu amor por Eliza fora e era verdadeiro. A saudade queimava como brasa sua pele, seu coração. Perdoara sinceramente os erros que ela havia cometido e reconhecia que amava aquela mulher de corpo e alma.
Há limites para o perdão? Quanto pode o ser humano perdoar?
Questões de difícil resposta, porém, o Mestre nos disse:
─ Não existem limites para o perdão.
Sabemos que poucos que viveram neste planeta conseguiram cumprir o que Jesus nos ensinou, portanto...
A inferioridade da humanidade não permite que se perdoe, muitas das vezes, nem ao menos uma vez, quem dirá seguir a orientação de nosso iluminado Mestre. 

Quanto mais o Reverendo Nicos se aprofundava no estudo do “Evangelho Segundo o Espiritismo”, mais se convencia da sua clareza, beleza e verdade. Passou a questionar sua escolha pela igreja católica quando dele se aproximou um espírito. Era um homem de meia idade. Vestia uma longa túnica bege. Seu olhar penetrava o íntimo da alma e sua presença era confortadora.
Assustado, o Reverendo logo inquiriu:
─ O que quer? Quem, por Deus, é você?
─ Não te atormentes irmão. Venho mesmo em nome D’Ele.
Suando muito e, ainda incrédulo, o Reverendo se limitou a ouvi-lo.
─ Nicos, nada há de errado em tua escolha. Escolheste o que de melhor te serviria ao espírito, irmão. Tens desempenhado o teu papel com louvores. És pastor de muitas ovelhas que, neste momento, só podem compreender a igreja à qual te dedicastes. Segue firme em tua fé. Expanda teus conhecimentos sem, neste instante, revelar a fonte. Aprenda e ensina sem ferir conceitos, sem apontar “erros”, nem queira impor a tua opinião. Acautele-se, guarda para ti, por ora, o conhecimento que tens adquirido. Não se aventure na paixão do novo, não erga bandeiras que não possam ser vistas nem sustentadas. O tempo da “revelação” que te chegou, chegará, no tempo certo, e tão somente assim, a teus irmãos. Não te inflames em expandir ideias novas àqueles que ainda não as podem compreender e assimilar. Acautela-te irmão.
A igreja católica jamais aceitaria que um sacerdote pudesse vir a simpatizar com a Doutrina Espírita. Logo o taxaria de herege, o excomungaria, faria...

E assim, em meio à suave névoa, a imagem se desfazia.

O Reverendo Nicos tentou ainda uma última vez, saber quem era o irmão espiritual que, assim como veio, se foi. Nada.
Da aparição restou somente a suave sensação de bem estar e um perfume que não podia descrever. Dádivas de Deus.
Ainda desnorteado, o Reverendo experimentou sentimentos variados até que conseguiu se recompor e analisar o ocorrido. Isto feito orou agradecido, comovido e definitivamente convencido que existe vida além da morte e comunicação com os espíritos.
Absorvida a mensagem recebida, soube que somente podia contar com Ambrozina para compartilhar de tão sublimes e maravilhosas descobertas. Assim sendo, foi logo vê-la, ansioso e feliz. Encontrou Ambrozina pelo caminho e, sem ao menos lhe perguntar para onde ia, foi falando, falando sem parar. Percebeu algo de estranho na amiga e enfim perguntou:
─ Desculpe, estou incomodando?
─ Incomodando não, Reverendo, é que estou apressada no momento. Devo visitar uma pessoa que está hospitalizada.
─ Posso lhe fazer companhia, se permitir é claro.
─ Não desta vez. Quem sabe conversaremos sobre o assunto. Por ora não, sinto muito, Senhor.
─ Desculpe mais uma vez. Eu estava eufórico por conversar, você pode compreender, não é mesmo?
─ Sim, posso. Falaremos depois, terei muito prazer em ouvi-lo.
─ Obrigado. Que Deus a acompanhe e Jesus a proteja.
Apressadamente, Ambrozina continuou a caminhar. Soube que o estado de saúde de Eliza se havia agravado, era necessário chegar logo.
Encontrou Eliza com febre alta, suja, mal tratada. Ao ver a amiga do coração Eliza sorriu aliviada, sabia que o socorro verdadeiro havia chegado.
Indignada com o estado de Eliza, Ambrozina se dirigiu à Direção do hospital. Não foi recebida, nem ouvida por ninguém.
Profunda conhecedora dos preconceitos humanos e das dificuldades que sua cor sempre impunha, lamentou não ter permitido que o Reverendo a acompanhasse. Com toda sua humildade, foi depressa procurar pelo Reverendo. Ele haveria de ser ouvido.
Encontrou o Reverendo de pé em frente à igreja e, sem que ela dissesse palavra, ele disse:
─ Vamos, vou ajudá-la.
Comovida compreendeu de imediato que ali estava mais um abençoado “médium” e ela não havia ainda percebido.
Eliza foi convenientemente medicada, limpa e alimentada. Seria assim dali por diante.
Sem conseguir articular palavra, Ambrozina apenas olhava para o Reverendo.
─ Quer falar sobre Eliza, Ambrozina?
─ Senhor, será uma longa conversa. Talvez o Senhor se surpreenda, ou não, uma vez que a sua percepção é grande e seu dom abençoado.
─ Imagino sobre o que fala, porém, devo confessar que tenho muito a aprender.
─ Todos temos Senhor, todos.
Os amigos se despediram marcando uma conversa para o dia seguinte. O tempo urgia e a necessidade era muito grande.
A desconfiança que Eliza causava no Reverendo o incomodava, mas, no fundo de sua alma, sentia o que ouviria de Ambrozina. Só não sabia o que fazer, como proceder. Intuitivamente, rogou a Jesus que lhe enviasse, ainda mais uma vez, o amigo espiritual do dia anterior. Como por encanto, nosso querido Reverendo adormeceu e se encontrou com o amigo em melhores condições, ou seja, em espírito. O amigo espiritual o esclareceu quanto aos fatos e encerrou o encontro dizendo:
─ Desse nosso abençoado encontro, irmão, tu apenas te lembrarás do necessário. Entenderás com a prática e o tempo, a razão dessa necessidade. Por ora, agradeçamos a Jesus pela oportunidade e que Ele nos permita o trabalho em conjunto no bem. Deus seja louvado. Louvado sempre seja Nosso Senhor Jesus. Até breve, Nicos.
O Reverendo despertou revigorado, feliz, agradecido, estupefato. Jesus o havia atendido. Que benção, que alegria. Agora tinha algo a mais para contar à amiga Ambrozina. Ela com certeza ficaria admirada com o seu progresso! Lamentava não poder dividir com Margareth bênçãos tão grandes, revelações tão belas e verdadeiras. Ela certamente não compreenderia. Pelo menos, como disse o “amigo”, não por ora. ─ Que pena. – pensou –

A equipe das Quatro Estações acompanhava sinceramente feliz, o despertar espiritual do Reverendo Nicos.





O PERDÃO DE ANANDA

O fim do outono se aproximava, a temperatura e a paisagem começavam a ser as mesmas que marcaram o inicio desta história
Ananda, nossa protagonista, olhos marejados, buscava forças e, dirigindo-se a seus superiores, comovida e sinceramente lúcida, disse:
– Irmãos, sinto esvair-se o tempo. A abençoada concessão Divina chega a seu termo. Sei que muito fizemos. Trabalhamos junto aos irmãos infelicitados pela ação da guerra, intuímos outros no bem, direcionamos pensamentos e atos, tudo foi maravilhoso e muito bom. Devo confessar, porém, que a proximidade do real objetivo desta missão já deixa em meu espírito saudade.
Agradeço profundamente todo o auxílio que recebi. Sem vocês eu nada poderia fazer. Perdôo do fundo de minha alma, a quem me tirou a vida, assim como perdôo, sinceramente, àqueles que me faltaram com a verdade absoluta sobre minhas origens nesta minha última encarnação.
Só espero que, aqueles a quem um dia prejudiquei possam, também eles, me perdoarem.
Deus permita que, a partir do perdão mútuo, possamos escrever uma página melhor em nossas histórias.
Comovida, a equipe orava agradecida.
A cidade de Antuérpia, pouco habituada a novidades, ferveu naquela manhã. Dali a três dias, Henry seria finalmente julgado e sentenciado. O dia correspondia exatamente ao primeiro dia do inverno.
Frio, em breve a neve cairia e, assim como sempre, mais um ciclo se fecharia.
As marcas da guerra ainda eram muito fortes, porém, os ânimos e os ideais se renovavam. Era tempo de recomeçar, rever, meditar e não tornar a errar





O JULGAMENTO

Antuérpia, 1918.
Manhã fria e cinzenta de início de inverno. No tribunal, curiosos começavam a chegar buscando “bons lugares”. A área reservada aos advogados e promotores estava vazia. A cadeira onde se sentaria o réu era a primeira coisa que olhos ávidos por “sentença”, buscavam. Escura e fria, ela receberia aquele que, nos últimos tempos, vinha sendo o comentário da cidade, Henry.
Em sua casa, antes de sair para o seu primeiro trabalho como advogada, Ava, contando sempre com o apoio da amiga Ambrozina, orava ao Senhor com toda a fé que trazia guardada no fundo de sua alma.
Vestida de azul, como havia programado, vestiu por cima um grosso casaco de peles, olhou no fundo dos olhos da amiga e, antes que fizesse menção de sair, Ambrozina disse confiante:
─ Fique firme e tranquila meu bem, tudo vai dar certo.
Sem dizer palavra, Ava saiu. O contato com o ar frio da manhã congelou-lhe o rosto, mas, mesmo assim, ergueu o quanto pode a cabeça e caminhou segura e firme.
Ao chegar ao tribunal, todos os olhares foram para ela e, a meia voz, começavam os comentários pouco felizes:
─ Vejam, chegou a “advogadazinha”. O que será que ela pensa que é? Coitado do Henry, com alguém assim para defendê-lo nem precisava ser julgado.
Risos. 

Margareth e o Reverendo Nicos chegaram juntos causando entre os presentes o efeito do mais absoluto silêncio e respeito.

A equipe espiritual, atenta, elevava ao máximo a vibração do ambiente, trabalhando pela harmonização dos sentimentos tão contraditórios ali presentes. A chegada de Margareth e do Reverendo muito os auxiliou.

Na cela, Henry chorava, tremia, orava.

– Todos de pé. – Disse uma voz fria e autoritária anunciando a entrada do Exmo. Senhor Juiz –
Tomando assento, o juiz olhou para Ava com ironia. Ava retribuiu o olhar com outro de respeito e firmeza, fato que desconcertou um pouco o Senhor juiz.

Estava enfim iniciado o julgamento. Henry foi trazido.

Defesa e acusação em debate. Uma hora havia se passado daquela angustiante situação até que alguém pediu permissão para falar ao juiz. Permissão concedida, Ava foi chamada para perto do Senhor juiz, distanciou-se pálida e confusa, sentou-se.
A grande porta daquele tribunal foi aberta. Um guarda anunciou:
─ Testemunhas da defesa. Senhora Ambrozina e Senhora Eliza.
O povo nada entendeu e, em breve, o barulho de vozes a sussurrar se transformou em falatório.
O juiz reagiu exigindo silêncio. Foi obedecido a contra gosto, podendo ainda ouvir-se algum murmúrio lá e cá.
Henry, que já estava pálido pelo ano passado na prisão, perdeu de vez a cor e as forças, teve de ser amparado e atendido por um médico de plantão.
Eliza, sentada em uma cadeira de rodas, devidamente assistida por Ambrozina, adentrou o recinto. Olhos fundos, marejados, porém, conscientes, determinados.
Após o restabelecimento de Henry, que durou alguns minutos, Eliza foi autorizada pelo juiz a falar.
Margareth buscava no olhar do Reverendo uma resposta para tal aparição, sua cabeça rodava sem nada compreender.
Nesse instante, a equipe espiritual, de joelhos, orava como nunca ao Senhor.
Quem pudesse ver, com os olhos do espírito, teria visto a enorme explosão de cores suaves que daqueles irmãos emanavam iluminando todo o ambiente e elevando-se além do lugar tão pequeno para tamanha fé.
Suavemente o Reverendo tocou a mão de Margareth como que adivinhando o que se passaria. Transmitiu, em seu gesto, confiança e força à amada, amiga.
Atordoado, Henry pensava:
─ O que é que ela está fazendo aqui? Repentinamente um pensamento fulminou-lhe a mente. Não pôde conter o pranto nem tampouco deixar de sentir dores atrozes que pareciam brotar-lhe do mais profundo de seu ser, sua alma.

Eliza, já autorizada a falar, percorreu com os olhos a assistência. Em meio ao povo pode encontrar o olhar frio e indagador de seu irmão Simon, que, junto à esposa, olhava incrédulo a irmã que julgava morta. Seus sentimentos misturavam-se e não os podia definir até que, Fredy, tocou-lhe a fronte. Simon sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo, logo após, lágrimas há muito represadas, correram de seus olhos. A esposa pôde compreender. Tentou consolá-lo sem sucesso. Simon soluçava comovendo Eliza que passou a dar vazão, também ela, ao pranto do arrependimento e da dor.
Pressionada pelo juiz a falar, Eliza, diante de todos, começou o seu relato:
─ Antes de qualquer coisa, peço que, se puderem me perdoem, em nome de Deus.
A frase de Eliza, proferida com sinceridade, fez com que luz profunda a iluminasse, fortalecendo assim todas as suas células, toda a sua determinação em expor a verdade.
─ Senhor juiz, apresento-me para dizer que Henry é inocente. Fui eu a autora do crime. Eu matei a menina Ananda e disso ninguém sabia.
A assistência em polvorosa falava, exclamava, exigia tanto que o juiz não deu conta de deter o falatório. Foi obrigado a pedir a intervenção dos guardas para que a ordem fosse restabelecida. 
Eliza pode continuar.
─ Simon, perdão por tudo meu irmão. Não me queira mal. Sei que não sou digna de seu amor, mas, por Deus, tente me perdoar. Ao menos tente. É importante.
Simon não podia nem ao menos pensar no momento, apenas chorava.
O juiz chamou a atenção de Eliza para que esta se detivesse aos fatos.
─ Sim senhor, me desculpe.
─ Sinto muito, de verdade se, para que eu possa continuar meu relato e expor minhas “absurdas razões”, eu tenha de magoar a muitos. Sinto muito mesmo, mas, diante das circunstâncias, se faz necessário.
A verdade dói. Gostaria que pudesse doer menos, mas não posso, pois, em mim mesma, doeu muito.

Eliza trouxe à tona toda a verdade diante da platéia sedenta de sangue e lágrimas.
Revelou seu caso amoroso com Henry e o quanto ainda o amava, apesar das adversidades, ao que, Henry reagiu frio e dolorido.
Margareth mal podia crer no que ouvia. Sentia-se atordoada. O Reverendo, como sempre, apoiou-a.
Na continuação de seu depoimento, Eliza confessou ter receitado chás abortivos a várias mulheres sem que elas soubessem. Odiava crianças e odiava a alegria das futuras mães. Disse não poder definir a razão pela qual se sentia assim na época.
─ O que mais profundamente lamento e o que mais torna dolorida a minha alma e consciência é o fato de meu amado irmão, que o Senhor o tenha, ter pago com a própria vida pela minha insensatez e maldade.
Nesta altura do depoimento, a assistência não se conteve, com gritos e gestos, pediam: “morte à bruxa!”.
Simon se sentia confuso.
O delegado Orestes, ao ouvir a confissão de Eliza, vislumbrou a possibilidade de enfim, poder ter uma pista do assassino de Fredy. Encontrar este homem havia se tornado, para o delegado, uma questão de honra. Não se conformava em deixar impune um crime que tanto havia feito sofrer sua filha.
Eliza detalhou todos os fatos do dia da morte de Fredy e que quase tiraram sua vida também.
Deixou claro que só sobreviveu por que os homens pensaram que ela também havia morrido e por que alguém, misericordioso, trouxera ajuda. Os homens enfurecidos eram maridos privados da paternidade pelas mãos criminosas de Eliza. De alguma forma, que ela não soube dizer qual, eles haviam descoberto seus crimes e resolveram fazer justiça com as próprias mãos. Infelizmente, Fredy foi até lá naquele dia, pagou sem nada dever, sem nem ao menos saber que a irmã era uma criminosa em potencial.
Mais um detalhe para o delegado. O assassino não era um e sim dois.
Eliza confessou ainda, ter tentado ministrar chá abortivo à Margareth, quando soube que ela engravidara de seu amor. Não tendo sucesso, passou a nutrir por Ananda ódio em seu íntimo.
O ódio foi maior ainda por não ter obtido êxito na tentativa de ministrar seus  “maravilhosos” chás à Margareth.
Diante desta confissão, Margareth que, até então mantinha o controle de suas emoções, levantou-se e, numa explosão de sentimentos, gritou:
─ Estúpida, não percebe o quanto é estúpida?
Calaram-se todos. Até mesmo o severo juiz.
─ Quanto tempo se relacionou intimamente com Henry? Porque será que você, mulher, não engravidou? Pode perceber? Pode responder?
Eliza, pálida, pode apenas baixar sua cabeça sem saber o que dizer. Margareth continuou:
─ Assim como você mesma disse há pouco, a verdade dói e isto é real. Pois bem, sinto muito também se a você, querido Henry, neste momento, terei de ferir, mas, como agora a verdade se faz necessária, terei também eu de falar. Não posso calar perdão, mas, nem ao menos devo.
Eliza, Henry não pode ter filhos, ele é estéril. A menina que sacrificou por ciúme, não é filha dele!
Neste instante a assistência ferveu. Henry desfaleceu e teve de ser amparado, o Reverendo não sabia o que fazer. Pôs-se em oração. Margareth continuou:
─ Não percebeu então, você, especialista em tirar vidas, em sexo, você não percebeu o que era evidente? Leve consigo mais esta dor. Você certamente merece. Não esperem que eu revele quem é o pai de minha filha, isto não farei, mas, saibam que Henry não é. A prova de minha afirmação está diante de nós. Anos de relacionamento escuso e nada de filhos. Talvez seja essa a paga de vocês dois.
Sei que não posso me colocar acima de vocês por terem traído, pois, também eu trai. Posso dizer que foi por amor, mas vocês também podem. Isto agora não vem ao caso. Só queria que você soubesse Eliza, que matou uma inocente, que sua vingança foi inútil, que você perdeu.

Silêncio no tribunal. O juiz não pediu que Eliza prosseguisse com seu depoimento. Os detalhes sobre o crime seriam esclarecidos em outra oportunidade, uma vez que as revelações ora expostas eram suficientes para o momento.

Atônita, Eliza não sabia mais o que dizer.
Ava e Ambrozina trocaram olhares.
A jovem advogada Ava ganhou a causa. Henry foi libertado, Eliza foi presa e mais tarde condenada à prisão perpétua. Recolheu-se à sua nova morada resignada, consciente de que deveria pagar pelo mal que causara.

Algo de angustiante num pensamento envolveu o Reverendo: “Será?”.
Ele e Margareth recolheram Henry, ou o que sobrou dele, para conduzi-lo de volta ao lar.
Cabisbaixo e triste, Henry passou a se sentir o culpado pela situação e, olhando-os em seus olhos, disse:
─ Perdão.
O pedido foi tão sincero que Margareth e o Reverendo não puderam conter as lágrimas. Margareth, já um pouco refeita da forte emoção, respondeu com outra pergunta:
─ E você, pode me perdoar?
Muito emocionado, Henry respondeu a Margareth com um forte abraço. Um abraço sincero, comovido, iluminado pela equipe das Quatro Estações que, assim como eles, sentia a emoção do bem imperando, do amor vencendo as duras barreiras do mal que reside ainda em cada ser.

Ambrozina, fiel benfeitora de Eliza, acompanhou a protegida até a cela que viria a servir-lhe de lar até o fim de seus dias na jornada terrestre.
Com carinho falou-lhe:
─ Fez o melhor Eliza. De agora em diante, uma nova vida começa para você, apesar dessas grades. Virei vê-la sempre. Juntas continuaremos a aprender as lições de Jesus. Sei que o Reverendo também virá. Esteja certa de que não iremos desampará-la em momento algum. Creia irmã.
─ Eu sei, minha irmã, minha negra e alva irmã. Eu sei. Obrigada por tudo.
─ Vamos agradecer juntas ao Pai, pois, o certo foi feito.
─ Sim, vamos. E que Ele me possa dar forças para que eu chegue ao fim de meus dias melhor do que quando voltei a este mundo.
Sorrindo Ambrozina iniciou a prece:
─ Deus, nosso Pai, criador do céu e da terra;
Perdoa nossas fraquezas, nossas faltas, nossa ingratidão.
Permita Pai que, pelo arrependimento sincero, possamos evoluir de volta à Tua sublime presença;
Conceda-nos, por misericórdia, novas oportunidades de sanarmos as nossas faltas, as nossas dívidas perante Ti e perante o nosso próximo.
Olha Pai, pelos teus filhos resignados e confiantes em Tua soberana justiça e conceda-nos, ainda mais uma vez, a abençoada chance da reencarnação.
Obrigada, Deus, nosso Pai.





ESCLARECIMENTOS

Depois de acomodarem Henry e de assistirem-no em suas necessidades, o Reverendo Nicos e Margareth ficaram a sós.
Olhos nos olhos, as palavras não chegavam nem a um, nem a outro. Passaram, assim, alguns minutos até que a equipe espiritual, por julgar necessário, interveio e o Reverendo Nicos, por ser mais sensível à influência, falou:
─ Margareth, se você quiser falar, fale e, se não quiser, vou embora agora.
─ Devo falar. Sei que posso contar com sua compreensão. É muito difícil para mim. Vou tentar, muito embora a emoção já comece a brotar dentro de mim.
Margareth começou a chorar. Era um pranto dolorido, represado pelo tempo.
Tentando manter o controle e não conseguindo, Margareth explodiu:
─ Não se lembra da nossa paixão? O quanto nos amamos? Por acaso não se lembra daquele dia?
─ É claro que me lembro. Ambos sabemos que fizemos o melhor conservando entre nós apenas a simpatia e a amizade.
─ Sim, não é disto que falo. Refiro-me a Ananda, nossa filha, Nicos.
Em vários anos, esta era a primeira vez que ela pronunciava seu nome sem o título.
A revelação não surpreendeu o Reverendo. Com toda a serenidade ele prosseguiu o diálogo:
─ Margareth, esta revelação não me surpreende. Não vou julgá-la. Estou certo de que você ouviu a voz de seu coração e de sua razão. Deus sabe sempre o que faz e o que nos permite fazer. Você é a mesma amiga para mim hoje e sempre. Só tenho uma preocupação: Henry. Dirá a ele sobre nós?
─ Só o tempo dirá. Assim como disse, seguirei a razão e o meu coração neste caso mais uma vez, e Deus tenha piedade de mim.
─ Ele tem de todos nós, minha querida, acredite. Já que o momento é tão apropriado, devo dizer-lhe que meu amor por você nunca se acabou. Ele vive dentro de mim. É puro, é singelo. Não necessita de proximidade física, ele existe na minha alma. Encontraremos nos na Eternidade para que enfim possamos viver este amor. No momento é nosso dever cuidar de nossos irmãos mais necessitados com carinho e com a certeza de que nosso amor nos espera muito além da vida material.
Perplexa e feliz, Margareth sorria e chorava ao mesmo tempo.
─ Nicos, você não é desse mundo.
─ Sou sim, minha querida, assim como você também é. Saber que sou pai de Ananda me faz um homem feliz, realizado. Mesmo que eu, nessa vida, não tenha podido acalentá-la em meus braços, posso sentir a presença vibrante de seu espírito iluminado. Você me fez muito feliz Margareth. Obrigado!
Tomados por uma emoção forte, eles se abraçaram como há muito não ousavam. Pela fresta da janela, Henry presenciou a cena. Triste, deitou-se.
A equipe espiritual emocionada acompanhava tudo de perto.

O inverno chegou cobrindo de branco a paisagem e indicando o fim da missão das Quatro Estações.
Reunidos, os integrantes da missão agradeciam ao Pai a sublime oportunidade e começavam a preparação para retornarem ao plano espiritual quando, no centro do círculo que formaram, viram surgir um ser altamente iluminado. Todos se calaram diante daquela magnífica visão:
─ Deus seja conosco e Jesus nos abençoe e oriente. – Disse a voz branda daquele ser iluminado. – Venho compartilhar convosco este momento de alegria. Desde o início, sabíamos que o sucesso viria a coroar esta missão de amor, de fé e de caridade pura. Deus seja louvado.
Silêncio.
─ Sei que estão se perguntando quem afinal eu sou, uma vez que, até o momento, vocês ignoraram a minha presença. Saibam que assim deveria ser. Estive junto a vocês o tempo todo, auxiliando-os conforme as minhas possibilidades. Quando vos foi concedida esta missão, fui designado para segui-los e é com imensa alegria que vos digo que colaborei muito pouco, vocês trabalharam maravilhosamente bem. Nem ao menos imaginam o quanto alcançaram nesta missão. Todos aqueles irmãos que atenderam no campo de batalha oram, neste instante, por vós, profundamente agradecidos pelo vosso auxílio e orientação. Quantas bênçãos, meus irmãos!

A equipe das Quatro Estações ouvia em silêncio aquelas palavras que soavam como uma canção em seus ouvidos.
O iluminado mentor se aproximou de Ananda e pediu para que ela se levantasse. Ela obedeceu olhando com admiração aquele rosto que transmitia uma paz que não se pode definir.
─ Irmã, a hora do retorno à Pátria espiritual chegou. Antes, porém, recapitulemos juntos, todos nós, o que foi feito em prol de nossos irmãos, atentando ao objetivo principal da missão.
Dito isto, o mentor e Ananda sentaram-se junto aos outros para que o mentor pudesse iniciar a recapitulação da missão.
─ Vamos lá meus irmãos. Devo adverti-los que a minha narrativa pode trazer à tona fatos por vós despercebidos durante o trabalho que executaram.
A missão das Quatro Estações teve seu início mediante o fervoroso pedido de nossa irmã Ananda que, aflita com a situação na qual deixara seu pai, nos solicitou socorro. Todos sabemos que a missão só foi possível graças à bondade Divina e que nem sempre se pode atender a esse tipo de pedido. Vários fatores são levados em conta, como bem sabemos.
Muito bem, após obter a devida permissão, Ananda conheceu vocês, Augustus e Frida, guias espirituais que a ela viriam a se unir para o trabalho junto à crosta terrestre. Você Fredy veio depois, não é mesmo?
A missão tinha por objetivo principal, livrar Henry da falsa acusação de assassinato, objetivo que foi alcançado com esforço e com sucesso, graças à infinita bondade de Deus. Vamos contar esta história do nosso ponto de vista, ou seja, vamos vê-la com os olhos do espírito. Assim entenderemos melhor tudo o que se passou.
Sabemos que Eliza e Henry, em encarnação anterior a esta, formavam um casal nada bem intencionado. Sabemos ainda que Simon e você, irmão Fredy, eram seus filhos na ocasião.
Você Ananda, era irmã do moço pobre que, nesta encarnação, é o nosso querido Nicos, e que era apaixonado por uma bela moça rica, atualmente nossa irmã Margareth.
Este amor foi frustrado pela ação funesta de Henry e Eliza que, por intermédio de um golpe, destruíram o sonho de amor do casal apaixonado. Não que tivessem obtido êxito no golpe, não foi isso que separou o casal definitivamente, este motivo apenas deu início a um processo de separação que seria irreversível. O moço pobre, tocado profundamente pela tristeza de perder a amada, entendeu que não poderia mais se casar com ela pelo simples fato de que sua posição social era precária. Mesmo sabendo que o homem rico era um golpista e que a mulher amada estaria livre para um novo compromisso, ele compreendeu que jamais seria bem aceito pela família dela e que não poderia manter o padrão de vida com o qual ela estava habituada. Ambos sofreriam. Além do mais estava explícito que o pai da moça só daria permissão ao casamento dos dois por falta de opção. Isto era humilhante demais para um jovem com brios como ele.
Assim pensando, nosso jovem irmão partiu daquela cidade e foi viver em outro local. Jamais deixaria de amar aquela moça. Resignado, triste, resolveu dedicar sua vida aos estudos teológicos, paralelos ao trabalho de onde tirava seu modesto sustento.
Conheceu então,  outra moça, pobre como ele e muito religiosa, com quem passou a compartilhar a alegria de poder comentar seus estudos, suas descobertas. Enfim, encontrou uma amiga muito querida. Juntos trabalharam muito pela comunidade onde viviam, auxiliando e amparando muitas pessoas. Esta moça é nossa atual e querida Ambrozina, que tanta ajuda nos prestou e ainda há de prestar a muitos necessitados.
Sei o que pensam neste momento, crianças. Devo chamá-los assim porque certas vezes é mesmo como crianças que reagem e se comportam. Isto não é de todo ruim não, meus amados. Vou esclarecer.
Não, na encarnação passada, Ambrozina não era negra. Era branca, loura e segundo os padrões materiais da Terra, muito bonita.
Entendem agora porque os adverti aos detalhes que vos passaram despercebidos?
Muito bem, vamos continuar.
Nossa pobre moça rica viveu triste e solitária. Às vezes não conseguia compreender porque seu amado a abandonara se poderiam ter se casado após a descoberta do golpe. Viveu com esta dor até o seu desencarne.
No plano espiritual o casal reencontrou-se. Viveram lá felizes por algum tempo até que chegou o momento no qual, por amor e por necessidade de crescimento espiritual, decidiram-se pela reencarnação para auxiliar os irmãos que lhes haviam compartilhado a vida terrestre. No caso, você Ananda, Eliza, Henry e outros, sendo você Ananda, a irmã que mais os preocupava.
Após o seu desencarne de então, você sofreu muito por ter delatado o casal que foi morto por causa da sua denúncia. Seu espírito necessitava muito de paz, de regeneração. Por essa razão, os fatos se deram como se deram. Sei que você hoje compreende tudo com clareza.

Nicos e Margareth, esclarecidos quanto à imortalidade dos sentimentos puros, renunciaram mais uma vez ao amor na carne, muito embora quase tenham colocado tudo a perder quando, abrasados pela lembrança do amor que compartilhavam, desde sempre, entregaram-se um ao outro. Felizmente havia um objetivo necessário a esta entrega: o seu nascimento, Ananda.
Nicos escolheu a vida religiosa para reforçar a renúncia e para aproveitar os estudos teológicos aos quais se dedicara indo, como sabem todos, em sua atual encarnação, mais além, mesmo amando Margareth e mesmo tendo, por uma vez, se entregado a este amor.
Vejamos agora quem era Ava, nossa querida advogada e colaboradora.
Antes, porém, me permitam lembrá-los de um detalhe reencarnacionista: o espírito reencarna obedecendo às suas necessidades de aproveitamento da concessão, ou seja, na forma e no contexto mais adequado à sua evolução. Sendo assim, Ava foi um dos juízes que condenaram Henry e Eliza, no passado, à morte. Vejam meus irmãos, que bela oportunidade foi concedida à irmã Ava!
Vocês devem estar se perguntando:
– Se ela foi um juiz que condenava os outros à morte, sua atual encarnação até que está sendo bem suave. Teria ela créditos?
Respondo que sim e que não. Pensem que nesta encarnação ela ainda é jovem. Teve a abençoada oportunidade de reparar sua atitude para com Henry, mas tem vários anos de vida pela frente e ainda virá a depuração de seu espírito através do sofrimento. Isto tudo pertence ao futuro e nele não temos autorização de adentrar.
Os fatos que nos interessam restringem-se ao aproveitamento da Missão das Quatro Estações.
Quanto à sua estória irmão Fredy, sei que tudo compreendeu, ou talvez, quase tudo, vejamos: o que mais o está incomodando atualmente é a falta plena de compreensão pelo seu desencarne violento e a separação da noiva a quem ainda tanto ama.
Foi você mesmo, meu irmão, quem programou todos estes acontecimentos por amor a seus pais, a Anne Marie e a você próprio. Só uma dor profunda poderia modificar o espírito de Eliza e só você, nesta encarnação que se encerrou, seria capaz de tocá-la, ajudando decisivamente para o adiantamento moral e espiritual dela. Foi a sua atuação espiritual que “salvou” o espírito de Eliza. O seu desencarne, tal como se deu, foi a situação mais adequada ao arrependimento dela.
 Foi por amor que assim você escolheu antes de encarnar. Mais tarde, você terá oportunidade de se lembrar.
Quanto ao amor da noiva, hoje você sabe que todo amor puro sobrevive à morte física e permanece, lapidando-se, pela eternidade, portanto...
Mas deixe que eu lhe diga algo mais preciso sobre o assunto:
Anne Marie é sua companheira de muitas jornadas. Você se lembra daquele “anjo” que o intuiu no momento da morte de seus pais em sua encarnação anterior?
Era ela. Não estava encarnada na ocasião, mas, o amor entre vocês já existia mesmo vocês estando em planos diferentes.
As ditas “almas gêmeas” não necessariamente encarnam juntas e se engana quem pensa que sempre é aquela pessoa a quem amamos com paixão, com loucura, enfim, com emoções que distorcem o real sentido do amor entre dois seres.
Eis porque algumas pessoas, estando encarnadas, sentem saudades de alguém que não sabem definir quem é mesmo estando ligadas à outra pessoa afetivamente. Este é um acontecimento comum entre seres que estão na carne.
Quanto a seu irmão, Simon, o tempo tratará de arrancar-lhe do coração as pedras que ali estão. Não se preocupe Loraine muito o auxiliará.

Agora, meus amados, peço que reflitam sobre a extensão do trabalho que foi, abençoadamente, executado.
Podem perceber? Sei que sim.
Quanto à continuidade da vida de nossos irmãos na carne, o que daqui para frente nos caberá é velar por eles com orações e vibrações de força, amor, fé e caridade, para que, fortalecidos, possam seguir em paz as suas trajetórias.

Penso que não os surpreenderei com a minha última revelação:
Graças a uma sintonia perfeita, sou eu o espírito orientador que Nicos tem visto nos últimos tempos.
Recebi com muita alegria, autorização para continuar com ele até o seu desencarne.

A equipe estava maravilhada e feliz. Havia entre eles o doce gosto do dever cumprido.
Antes, porém, de voltarem à Pátria espiritual, receberam uma última graça, visitar mais uma vez os irmãos que, temporariamente, deixariam. Foi com muita alegria e agradecimentos que receberam a notícia.
Iniciaram a visita por Henry e Margareth.
O casal estava em paz desfrutando de uma bela amizade. Viveriam como bons irmãos.
O Reverendo Nicos, como sempre, às voltas com o seu rebanho. Iluminado pela presença do Mentor amigo que sempre estaria a seu lado.
Ambrozina, sempre dedicada, foi encontrada junto à Eliza, na prisão. Juntas oravam e comentavam sobre as “coisas” do espírito.
Ava voltou para a França, onde se dedicaria à profissão. A equipe a alcançou com o pensamento e pôde constatar que a jovem advogada aspirava ao cargo de juíza, no futuro.
Simon vivia feliz junto à sua família. Encontraram-nos em conversa familiar no exato instante em que Simon dizia que, em breve, iria visitar sua irmã no cárcere. Esforçar-se-ia para perdoá-la.
A equipe exultou!
O delegado Orestes ainda envidava esforços para capturar os assassinos de Fredy.
Anne Marie vivia resignada. Fredy era uma lembrança amada à qual ela jamais deixaria de se apegar.

A equipe percorreu a cidade que, embora confusa ainda pela ação da guerra, começava a dar sinais de reequilíbrio.

Isto feito voltaram ao plano espiritual onde continuariam a trabalhar, a estudar, enfim, a evoluir.

Assim como a equipe Quatro Estações, todos nós ainda encarnados podemos contar com o auxílio de irmãos que, como esses, nos auxiliam, nos intuem, nos iluminam o caminho e, muitas vezes, nos protegem de perigos.
Esses espíritos podem ser de parentes da presente encarnação ou não, pois, a família espiritual é imensa. Somos todos, bons ou maus, filhos do mesmo Pai que o Mestre Jesus veio iluminar para que possamos compreender quem somos de onde viemos e para onde vamos.
Jesus nos esclareceu que a cada um se dá segundo as suas obras. Isto, como acabamos de ver, é a mais pura das verdades.
A vida não se extingue com o corpo e daqui levamos somente os tesouros espirituais. Só o bem que fizermos, só o quanto aproveitarmos a encarnação para nos melhorarmos, consequentemente, ajudando para que aqueles que nos compartilham a jornada melhorem também. São esses os bens que nos acompanham após o nosso desenlace físico.
Existe uma lei que rege o universo e que é imutável, a ninguém poupa, nem tampouco isenta. Esta lei não se corrompe e a ninguém pune, ela apenas existe.
A punição na verdade é um equívoco.
Podemos concluir que o sofrimento é fruto da má semeadura e que Deus e Jesus a ninguém punem. Somos nós mesmos os autores das nossas dores e só o pleno entendimento das leis de Deus pode nos livrar de mais erros que culminem em dor.

Vimos, nesta estória, que a evolução é contínua. Que a roda da vida nunca pára, seja do lado de cá, seja do lado de lá.

FIM


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