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Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
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Annapon ( escritora e blogueira )

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito e publicado, ...

A Missão das Quatro Estações - Capítulo XVI - Uma Prova -

UMA PROVA

Era dia de festa na igreja. Comemorava-se o dia de um Santo de Devoção dos fiéis. Mesmo o país estando em guerra, aquela pacata cidade insistia em festejar.
O local escolhido para a festa era sempre a praça que se situava em frente à igreja. O Reverendo Nicos havia rezado a missa e, junto aos fiéis, foi para a praça festejar. Tudo transcorria bem até que vários soldados alemães surgiram cercando a praça e, consequentemente, os fiéis. Ao deparar-se com tal situação, o Reverendo procurou entre eles o líder. Não houve tempo para conversa. Os soldados começaram a atirar para cima, queriam que as pessoas se dispersassem saindo dali. A correria e o pânico foram gerais. Ninguém compreendia o que estava acontecendo. As pessoas mal conseguiam pensar, apenas corriam e gritavam. O Reverendo Nicos avistou Margareth em meio à confusão, tentou chegar perto dela, apressou o passo quando percebeu que um dos soldados apontava a arma na direção dela. O Reverendo alcançou Margareth no exato instante em que o covarde soldado disparou sua arma em meio às pessoas.
Abraçado à Margareth, o Reverendo sentiu forte impacto nas costas, sentiu que suas forças estavam fraquejando, que sua visão foi ficando turva até que desmaiou caindo sobre uma grande poça de sangue.
O pavor tomou conta das pessoas assim como a indignação. Um dos soldados, provavelmente o líder, aproximou-se do Reverendo caído gesticulando e falando uma língua por todos incompreendida. Imediatamente após a sua aproximação, uma maca chegou trazida por soldados que nela colocaram o corpo ferido do Reverendo, levaram-no depressa ao hospital sendo seguidos por muitos fiéis que ainda por ali se encontravam. Margareth estava em estado de choque, também ela teve de ir para o hospital devido ao abalo que sofreu.
A revolta passou a ser o sentimento geral entre os fiéis que, do lado de fora do hospital, gritavam clamando por justiça.
Deu-se então outro confronto entre os soldados e os fiéis, mas, desta vez, sem feridos.
O Reverendo foi socorrido e medicado. Os médicos e os enfermeiros estavam chocados com a violência gratuita dos soldados, também entre eles o sentimento de revolta e indignação era forte.
Pouco tempo fazia que o Reverendo havia sido socorrido quando o delegado Orestes chegou ao hospital, também ele revoltado. Fez várias perguntas, até que resolveu ir falar com o soldado que parecia o líder. Buscou entre as pessoas que ali estavam um intérprete e foi-se.
O soldado explicou ao delegado que o disparo havia sido acidental, que a intenção deles era apenas a de dispersar a reunião, pois não podiam admitir, na qualidade de dominadores daquele país que grupos de pessoas se formassem em praça pública ou em qualquer outro lugar. Abriam exceção apenas à igreja, porém dentro de seu recinto, não na rua. O delegado teve de compreender, de qualquer forma não deixou de ressaltar que o soldado que efetuou o disparo cometeu um crime, pois não cumpriu à risca a ordem de apenas atirar para o alto. O líder respondeu com evasivas, deixando claro que aquilo era problema deles e que seria resolvido entre eles.
O delegado sabia que não poderia enfrentar aqueles homens e que por esse crime o soldado responderia em outra ocasião, se respondesse, pois isso não era lá muito certo que fosse acontecer. A impunidade em tempos de guerra é comum, infelizmente.
O estado de saúde do Reverendo era grave. O tiro que recebeu nas costas perfurou-lhe um dos pulmões. O hospital, devido à guerra, encontrava-se em condições precárias. O Reverendo necessitava de cirurgia de emergência e o material do qual o hospital dispunha era insuficiente. Devido à carência de recursos e à demora do atendimento, o Reverendo entrou em estado de coma, complicando-se mais ainda o seu quadro, pelo menos sob o ponto de vista médico.
Enquanto médicos e enfermeiros desdobravam-se em angariar recursos para o atendimento necessário ao Reverendo, este lentamente desprendia-se do corpo sob assistência da equipe espiritual que contava com o auxílio de um médico bastante experiente nestes casos.
Ao ver-se fora do corpo físico, o Reverendo mesclou sentimentos. Medo, alívio, interrogação. Até que foi assistido pela equipe espiritual ali presente e se acalmou. Aos poucos foi abrindo seus olhos espirituais e a primeira pessoa que viu foi ela: Ananda.
─ Minha querida, é você mesmo?
─ Sim Reverendo, aqui estou. Sinto-me feliz em poder falar-lhe e triste ao mesmo tempo pelas circunstâncias desse nosso encontro.
─ Do que fala menina?
Ananda, percebendo a falta de consciência do Reverendo, tornou a falar-lhe mansamente:
─ Descanse ainda mais um pouco. Em breves minutos conversaremos com mais clareza. Confie em mim.
Refeito da emoção, o Reverendo pôde ver com mais clareza tudo o quanto se passava. Teve medo, pensou-se morto. Nesse instante, Ananda passou a explicar-lhe a situação. Surpreso e profundamente emocionado, o Reverendo ajoelhou-se dirigindo a Deus calorosa prece comovendo a todos.
─ Então é verdade. Há vida além da morte. Isso é maravilhoso!
─ Reverendo. – Chamou Ananda, energicamente. – Não temos muito tempo, logo o seu corpo físico será restabelecido e o Senhor deverá voltar. Fez-se necessário trazê-lo até aqui para que suas dúvidas fossem esclarecidas. Vivemos, sim, além da morte física. Somos espíritos eternos, que têm encarnações sucessivas, como o Senhor tem tido a oportunidade de saber através das leituras a que tem se dedicado. Essa graça lhe foi concedida por merecimento e porque necessitamos muito de seu auxílio. Eu e meus amigos sabemos que meu pai é inocente, sei quem interrompeu minha vida física e posso assegurar-lhe que não foi meu pai. Lute conosco para provar a sua inocência e, por caridade, esteja sempre próximo à minha mãe.
─ O que me pede, anjo de Deus, não é novidade para mim, prometo ajudar e orar muito.
─ Sabemos disso e confiamos no Senhor. Quando acordar na Terra, o Senhor se lembrará desse nosso encontro. Essa lembrança fortalecerá sua fé e confiança. Que Deus o abençoe e que Jesus o ampare querido amigo.
─ Amém. – Respondeu o Reverendo. Ainda bastante emocionado voltou a adormecer.

Ananda experimentara um carinho enorme pelo Reverendo durante todo o tempo em que trabalhou para que ele pudesse vir ao mundo espiritual. Desconhecendo a procedência de tamanho afeto, procurou esclarecimento junto a Frida e Augustus:
─ Ainda não é o momento. É certo que o seu sentimento tem fundamento. Por ora deixe que esse sentimento flua com pureza. Unamo-nos agora em nossa missão. Concentremos nossos esforços ao que nos foi concedido vir.

Ananda se sentiu amparada e confiante. A equipe retomou o trabalho.

De volta ao corpo físico, o Reverendo, após sair do coma, sentia dores atrozes a atormentar-lhe a carne frágil. Providências foram tomadas para a cirurgia de emergência, recursos para tal intervenção chegaram àquelas paragens como que por “milagre” em auxílio ao Reverendo.
Médicos encarnados e desencarnados trabalharam arduamente para salvar a vida do Reverendo Nicos. Tiveram êxito. A cirurgia correu bem e o paciente respondia a contento ao tratamento pós-operatório.
Margareth, durante todo o tempo no qual o Reverendo correu risco de vida, manteve-se no mais profundo estado de oração. Agora já respirava aliviada e agradecida a Deus, a Jesus e aos seus Santos de devoção pela melhora de seu amado. O encontro dos dois após o fatídico dia do acidente foi algo profundamente emocionante e comovedor, mesmo porque o Reverendo fora atingido por entender que deveria salvar a vida daquela a quem muito amava. Riso e pranto, dor e alívio, carinho e amor verdadeiro. Podemos resumir assim o reencontro de Margareth com o Reverendo Nicos.
Recuperado quase completamente, requerendo ainda alguns mínimos cuidados, o Reverendo pôde se lembrar de sua viajem ao mundo espiritual e, ainda um tanto incrédulo, foi aos poucos, relembrando com clareza seu encontro com Ananda.
Já de posse total de sua capacidade mental, o Reverendo teve certeza de que havia “morrido” por algum tempo e de que havia estado realmente do outro lado da vida, como dizia Allan Kardec. Sentiu seu coração tomado de enorme felicidade e confiança. Chorava, agradecia, ria e bendizia a vida e suas dores, sabendo com certeza agora que a vida física é passageira. Certo da continuidade da vida em outra dimensão, o Reverendo sentiu uma vontade enorme de ver Ambrozina. Assim que fosse possível, iria vê-la e falar com ela sobre sua experiência, sobre a prova que tanto desejava ter.
Liberado pelos médicos, o Reverendo saiu do hospital rumo a sua morada, a igreja simples da praça. Amigos e fiéis reuniram-se em festa pela recuperação do Reverendo, entoando cânticos de graça e de louvor a Deus. Feliz pela manifestação de carinho e apreço, o Reverendo caminhava confiante, ou melhor, muito mais confiante agora. Entre sorrisos, apertos de mão e abraços, o Reverendo foi se aproximando de “sua” igreja e, ao chegar diante dela, ajoelhou-se chorando. O povo pensou que o Reverendo estivesse tomado pela emoção do retorno, mas, na verdade, ele entendia enfim, o engano, a tristeza da religião por obrigação.
Em sua mente relembrou os “fiéis” bem vestidos, perfumados, dispostos a participar da liturgia, porém, de olhos atentos nos outros irmãos, verificando-lhes a roupa, o perfume e até os seus olhares. Fiscais de calçados “compadeciam-se” daqueles que usavam o mesmo por meses a fio pensando: “Coitado, deve estar passando dificuldades. Ah, mas ele se arranja”.
Deus não está na pompa dos altares. Está nas flores, na natureza. Está em nós nos momentos em que conseguimos amar de verdade, despojados de interesses. 
Ainda sob o efeito de forte emoção, o Reverendo abriu a porta da igreja, sabendo que dali para frente nunca mais seria o mesmo. Mentalmente pediu pelo amparo de Deus, pelo amor de Jesus para continuar com dignidade seu santo ofício, agora totalmente transformado e fortificado. Rogando por auxílio, sentiu suave mão a tocar-lhe o ombro e sentiu que forças novas viriam em seu socorro, que nunca mais estaria sozinho em sua caminhada. Ânimo renovado invadiu seu peito. Sua fé agora se tornara mais consistente e segura. Sorrindo, percorreu toda a área da igreja até chegar a seu aposento modesto e acolhedor.
Sentia sua alma leve e forte. Sentiu paz. Na manhã seguinte, tomado por um impulso irresistível, o Reverendo foi falar com Ambrozina sentindo-se muito feliz por poder compartilhar com alguém sua mais bela experiência de vida.
Ao abrir a porta, Ambrozina sorrindo, recebeu acolhedoramente o padre amigo:
─ Entre, por favor. Deseja falar com alguém?
─ Sim. Com você mesma. Pode ser?
─ Claro que pode, vamos até o jardim.
O jardim da residência do Senhor Ivan era belíssimo. Absolutamente em harmonia com o assunto que levara o Reverendo até lá.
─ Veja Reverendo, podemos notar que o outono se aproxima.
─ Como?
─ Veja estas plantas aqui. – Ambrozina apontou para um canteiro bem cuidado.
─ Pode perceber?
─ Não, nada vejo.
─ Repare nas pontas da planta.
─ Estão um tanto avermelhadas.
─ É isto. Quando elas atingem esta coloração é porque o outono em breve chegará.
─ Você é sábia, irmã.
─ Longe disso, conheço apenas o que me foi ensinado.
─ Logicamente que aprendeu bem as lições.
Ambrozina encabulada “deu de ombros” ante a afirmação carinhosa de seu novo amigo.
─ Vamos ao assunto que me trouxe até aqui. Não preciso mais daquelas provas das quais falamos, lembra-se?
─ Claro que me lembro. O que aconteceu?
─ Durante o tempo em que estive no hospital e entrei em estado de coma, recebi a graça de estar com Ananda do outro lado da vida. Ambrozina, eu pude ver meu corpo separado de meu espírito, foi fantástico, emocionante, lindo. Foi tal e qual quando a vi separada de seu corpo e, naquele instante, não consegui compreender o que se passava, mas, agora que eu mesmo vivenciei a experiência, sei bem que o que vi era real.
─ Do que fala Senhor?
O Reverendo passou a relatar à amiga seus segredos jamais revelados:
A aparição de Ananda, a obra de Allan Kardec e sua experiência extra física, nada do que lhe foi dito surpreendia Ambrozina que ouvia com atenção.
─ Reverendo seu trabalho como Sacerdote é digno. Mesmo se o Senhor jamais tivesse tido tais revelações, ainda assim, esteja certo de que possui espírito elevado e condizente com os ensinamentos de Jesus.
─ Felizmente Ambrozina, sinto, dentro de mim, que sempre fiz o possível para desempenhar verdadeiramente meu papel, malgrado as normas do Vaticano e do clérigo em geral.
─ Isso é o que importa. A consciência tranquila é nosso mais acolhedor refúgio.
Os novos amigos encerraram a conversa felizes pela oportunidade que tiveram de partilhar sua fé.



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