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Textos psicografados, romance, Umbanda, Espiritismo compõem a tônica do A Alma das Coisas.
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Annapon ( escritora e blogueira )

A Missão das Quatro Estações

Olá amigos leitores do "A Alma das Coisas"! O blog está com uma novidade, romance mediúnico totalmente gratuito e publicado, ...

domingo, 29 de junho de 2014

“Sou zelador-de-santo”



Olá!

Dez anos se passaram desde que o sacerdote Agenor partiu para o plano espiritual e, só agora, em 2014, conheci, por alto, seu trabalho.

Mesmo sem me aprofundar nos estudos sobre sua vida e obra, o texto da entrevista abaixo foi suficiente para que encontrasse, em suas palavras, meus próprios pensamentos sobre o Candomblé e a Umbanda.
Alma generosa que certamente foi em vida, deve gozar nesse momento de muita paz e ventura no reino de Nosso Pai Oxalá!
Pai Agenor, segundo o texto abaixo, não cobrava pelo jogo de búzios e tal atitude, em minha opinião, está absolutamente de acordo com as questões que envolvem a espiritualidade.
Dinheiro se ganha com trabalho material, o trabalho espiritual deixa de ser Sagrado quando a matéria invade o campo da espiritualidade. Sempre pensei assim como ele e confesso ter sido uma grata surpresa, a essas alturas da vida, encontrar suas palavras tão sábias, seus pensamentos tão lúcidos!
Esse senhor culto e sensível, deixa um legado de amor e de fé ao nosso Candomblé brasileiro. Exemplo de homem e sacerdote a ser seguido pelos de boa fé e vontade, presente que Angola mandou ao Brasil, mais precisamente à Bahia, como não podia deixar de ser!
Admiro muito a postura e a lucidez desse homem de fé, zelador de Santo que respeita a natureza em todas as suas formas sendo coerente com a religião abraçada em vida.
O Candomblé é uma bela religião, sempre admirei e respeitei muito, li sobre Mãe Menininha e me encantei com sua história de vida e com sua obra, mas nunca me senti confortável com a questão do corte (ritual de sacrifício animal), nem tampouco com a questão das cobranças muitas vezes exacerbadas dos jogos de búzios, além dos excessos das vestimentas. Em minha concepção de espiritualidade, nada disso combina com o Sagrado. Ser espiritualizado é ser simples, honesto, verdadeiro e fiel ao mais Alto que tudo provê pelo nosso sustento material.
Amar e respeitar os Orixás seja no Candomblé ou na Umbanda é olhar para tudo e para todos como parte de nós mesmos, sendo assim, tudo de bom ou de ruim que se faça contra a criação, fatalmente recairá sobre quem executa a ação.
Penso em religião como algo que deva acrescentar qualidade em nossas vidas e não mais um problema como onerar àqueles que a buscam para aliviarem seus fardos com outro talvez ainda mais pesado que o já carregado.
Os espíritos e os Orixás não cobram nada de nós médiuns, a não ser nossa evolução pessoal, comunitária, social e planetária no sentido de colaborarmos uns com os outros e juntos zelarmos pela Criação da qual fazemos parte.
Simples assim e para tanto, uma boa e limpa roupa branca é suficiente para simbolizar a fé que levamos dentro dos nossos corações.
Um Salve a esse grande Zelador! E que ele, de onde estiver, possa inspirar os homens de fé auxiliando-os a evoluir sem alarde e sem vaidade, como bem dizia!
Annapon

"Como atua um oluwô?

R - A mando dos orixás. Sem alarde e sem vaidade. Na realidade, o magistério é que foi minha carreira. Trabalhei no magistério 47 anos, e saí com pena. Eu nunca vivi do santo. Eu vivo para o santo".



“Sou zelador-de-santo”

Um dos mais respeitados pais-de-santo do Brasil, Agenor Miranda Rocha emite opiniões corajosas sobre o candomblé.

por Gladys Pimentel


A reabertura dos terreiros de candomblé no feriado religioso de Corpus Christi traz, todo ano, à Bahia um dos mais queridos e respeitados sacerdotes do povo de santo, o oluwô (dono dos segredos) Agenor Miranda Rocha, 93 anos. No último dia 13, ele se dividiu na tríplice jornada de visitar o Gantois, a Casa Branca e o Ilê Axé Opô Afonjá.

Poeta, intelectual, escritor, cantor lírico e educador, ele é o responsável pelo jogo que indica os representantes na sucessão para as grandes casas de candomblé da Bahia. Foi seu jogo que nomeou mãe Stella, para o Opô Afonjá, e Tatá, para a Casa Branca. Pelo apartamento de pai Agenor, no Rio, passam, diariamente, dezenas de pessoas, incluindo artistas globais e políticos, que confiam a vida ao seu jogo de búzios.

Natural de Angola, pai Agenor veio para a Bahia com 5 anos de idade. Ainda criança, recebeu, de Eugênia Ana dos Santos, mãe Aninha, a vocação para o candomblé. A vida do oluwô já foi registrada em um livro, de Diógenes Rebouças Filho (Pai Agenor, editora Corrupio, 1997), e, agora, será tema do documentário Um Vento Sagrado, com roteiro e direção de Walter Pinto Lima e Carlos Vasconcelos Dominguez (este, morto no ano passado).

Nesta entrevista, concedida no último dia 16, antes de voltar para o Rio de Janeiro, pai Agenor fala sobre sua concepção de candomblé, critica o sacrifício de animais, o jogo cobrado e a grande exposição que a religião ganhou atualmente.

P - Quando e como surgiu sua vocação para pai-de-santo?

R - Não sou pai-de-santo, sou zelador-do-santo. O santo é que é meu pai. Eu acho esta

nomenclatura (pai-de-santo) muito errada. Eu zelo.

P - Qual é a diferença?

R - Se eu sou pai-de-santo, o santo é propriedade. Para mim, os orixás são fragmentos da

natureza. Cada orixá tem encantado um fator natural: Iansã, no vento; Iemanjá, no mar; Oxóssi, nas matas, caçando; Ogum, desbravando estradas. Então, como eu posso ser pai deles? Quero que me chame de zelador. Pai, não. O zelador trata dos orixás, faz, todas as semanas, uma obrigação, que se chama ossé. Fazer ossé aos orixás é limpá-los, cuidá-los.

P - Como o senhor vê, então, a utilização da nomenclatura pai-de-santo pelo candomblé?

R - Eu já encontrei isso quando fiz santo. Eu é que não me sinto bem em dizer que sou pai-do santo.

Para eles (algumas pessoas do candomblé), é uma glória dizer isso.

P - Voltando à sua vocação para zelador-de-santo, quando e como ela surgiu?

R - Eu tinha 5 anos. Na verdade, não fui eu quem procurou o candomblé, o candomblé é que me procurou. Minha família era toda católica, apostólica, romana, nunca “assistiu” a um candomblé. Nasci em Ruanda, capital de Angola. Vim para a Bahia com 5 anos. A vocação surgiu desde que eu nasci. Um africano disse isso para minha mãe antes do meu nascimento. Ela não acreditou, mas ele acertou em tudo.

Ela me esperava para outubro, ele disse que era para setembro. Eu nasci no dia 8 de setembro de 1907. Disse que eu ia trazer uma mancha vermelha na cabeça. Eu trouxe. Quando chegamos aqui, na Bahia, eu fiquei para morrer. Os médicos desenganaram-me. Minha mãe Aninha, a que fundou o Axé Opô Afonjá, fez o jogo e disse que eu não tinha nada, que era o orixá que iria ser feito. Fez-se o orixá, em 1912, e eu estou aqui.

P - O senhor ocupa um dos mais altos postos no candomblé. Como atua um oluwô?

R - A mando dos orixás. Sem alarde e sem vaidade. Na realidade, o magistério é que foi minha carreira. Trabalhei no magistério 47 anos, e saí com pena. Eu nunca vivi do santo. Eu vivo para o santo.

Até meu jogo de búzios, nunca cobrei. Não cobro, porque eu duvido um pouco dessa caridade cobrada.

Ela deixa de ser caridade quando é cobrada. Eu sou feliz, os orixás me deram essa missão, mas me deram também uma profissão. Então, não há necessidade de eu cobrar.

P - Nesses seus 93 anos, houve algum fato, alguma experiência que o marcou? No candomblé, por exemplo?

R - Diversos. Teve um episódio na minha casa, no Leme, no Rio, em 1947. Eu sonhei com Xangô me dizendo que estava segurando a casa até eu me mudar, pois a casa iria desabar. Eu mudei às 5 horas. Às 7 horas, a casa desabou. Então, eu tenho que ter amor aos orixás. Não posso vendê-los, me aproveitar.

P - Na Bahia do Senhor do Bonfim, o sincretismo religioso está muito presente. Qual a sua opinião sobre o sincretismo, considerando que o senhor é um zelador-de-santo, filho de pais católicos?

R - Não há crime nenhum no sincretismo, porque, se não fosse o sincretismo, não haveria
candomblé hoje. Essa é que é a verdade. As mães-de-santo e os pais-de-santo não querem o sincretismo. Mas tem que haver. Se não fosse o sincretismo, como é que o candomblé iria sobreviver até hoje? Teria morrido. Agora, eles não gostam quando eu falo isso. Mas eu falo o que sinto. Não falo pelos outros, falo por mim.

P - O senhor é devoto de Santo Antônio e de São Francisco de Assis e vai sempre à cidade de Assis, na Itália, venerar São Francisco. Como é que o senhor lida com isso dentro do candomblé? Existe preconceito?

R - Se há preconceitos, é com eles. Eu sou eu. Nunca tive conflito. E, agora, tem mais uma coisa: eu sou do santo, católico e espírita. Assim como na família: nem todos são iguais, mas convivem bem.

Não é isso? É uma questão de fé.

P - Qual a diferença do candomblé do passado para o candomblé atual?

R - Bom, eu costumo, numa frase, mostrar: eu sou do candomblé de morim (pano de algodão

muito fino e branco). Hoje, é candomblé de lamê (plumas, lantejoulas). Parece uma escola de samba.

P - O sacrifício de animais, um dos ritos mais comuns e simbólicos do candomblé, é contestado pelo senhor. Por quê?

R - Acho que é uma maldade. Os orixás, que são fragmentos da natureza, precisam de sangue?

Matar os animais que representam a natureza? Matar, além de tudo, com uma faca, devagarinho, com cantiga, até chegar em uma palavra para tirar a cabeça do bicho. Não dá! Sou contra a matança. Na vida, tudo evolui com o tempo. O candomblé podia ter evoluído um pouquinho, ser mais moderado. O candomblé, hoje, é um luxo.

Obs.: O texto na íntegra se encontra no site: www.corrupio.com.br/pai_agenor_entrevista.htm.

Nesta mesma época em que foi feita a entrevista para o “Jornal da Tarde - 24/06/2001” realizou-se um documentário sobre a vida de Agenor Miranda, intitulado “Um Vento Sagrado”. O filme traz depoimentos de personalidades, como o cantor Gilberto Gil e o escritor Muniz Sodré.


Agenor Miranda Rocha, o Pai Agenor, (LuandaAngola8 de setembro de 1907 — Rio de Janeiro17 de julho de 2004) foi um babalaô da Religião dos Orixás Candomblé Foi iniciado aos cinco anos de idade, em 1912, ao orixá Oxalá, pelas mãos de Sra. Eugênia Ana dos Santos, mais conhecida como Mãe Aninha de Xango ou Obá Biyi, fundadora do Axé Opô Afonjá, na cidade Salvador, devido a uma enfermidade, fato este que levou sua Mãe carnal a senhora Zulmira Miranda, católica Apostólica Romana, fervorosa, a aceitar o feito com intuito de salvar a vida de seu filho.Quando jovem, e já residindo na cidade do Rio de Janeiro, foi o nosso Ilustre professor, iniciado nos mistérios da Orixá Ewá, de onde segue que dado a União destes dois orixas, Oxalufã e Ewá, o nosso digno professor, ou como ele se auto intitulava, Zelador de Santo, ter um dom especial nos jogos sagrados dos buzios. O Professor Agenor, como era conhecido, foi professor catedrático aposentado do Colégio Pedro II, nas cadeiras de matemática e latim, cantor lírico (seguindo os passos de sua mãe, o soprano Zulmira Miranda e babalaô adivinho na referida tradição religiosa candomblé, um dos ocidentais mais conhecedores de a herança e a Cultura afro-brasileira, além de talvez uma das mais respeitadas personalidades religiosas por todas as lideranças de tradicionais terreiros do Brasil. Foi o jogo de búzios (meridilogun)do Prof. Agenor que decidiu a sucessão de importantes terreiros: Mãe Oké e Mãe Tatá, na Casa Branca do Engenho Velho; Mãe Stella, no Axé Opô Afonjá; Mãe Índia, no Terreiro do Bogun (o último grande jogo de sucessão antes do falecimento do professor). Agenor Miranda também foi poeta e musicista. Seu jogo de búzios foi um dos mais procurados do país. O velho professor foi orientador espiritual e conselheiro de personalidades de diferentes procedências religiosas e de muitos babalorixás,como Tatá Makamba Malaiá em São Paulo, no ano de 1972 e orientador do Babá Augusto César de Logunedé. Jorge Amado, Zélia Gattai, Almirante Adalberto de Barros Nunes, Maria Zilda, Maria Bethânia, Gal Costa, Liége Monteiro, Hugo Gross, Zora Sejlman, Antônio Olinto, Professor Paulo Alonso, Delegado Protógenes Queiroz,Vera Fisher, Marcelo Picchi, Camila Amado, Heloísa Perissé, Bel Kutner e Regina Casé, dentre muitos outros, foram amigos ou freqüentavam à casa do velho professor.
fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Agenor_Miranda



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Teologia e Teologia de Umbanda




Teologia e Teologia de Umbanda
Pensar, Fazer e Produzir Teologia

Por Alexandre Cumino
“Não há religião sem teologia”

“A produção teológica não é propriedade de alguns profissionais,

ela não pode ser refém dos líderes e sua hierarquia.”

“Nós podemos e devemos fazer teologia”

“Temos quase que por obrigação, por missão, fazer teologia”

Prof. Dr. Antonio Boeing

Coordenador do Curso de Bacharelado em Ciências da Religião - UNICLAR

“Teólogos são arrogantes por pensar que estão mais perto de Deus.”

Clodóvis Boof

“Quando um religioso racionaliza, pensa, reflete e fala sobre a sua religião,

produz teologia, não importa qual seja a sua formação”

Alexandre Cumino

A palavra Teologia vem do grego (Théos + Logos) em que Théos = Deus ou Divindade,

Logos = Palavra ou Estudo. Logo literalmente Teologia é o Estudo de Deus, das Divindades ou

simplemente o Estudo do Sagrado.

Quem primeiro se utilizou do termo foi Platão em A Republica para delimitar um campo

de compreensão racional da natureza divina, diferente das abordagens poéticas. Aristóteles

também empregou o termo para definir a filosofia primeira mais tarde chamada de

Metafísica.

Quando um religioso pensa sobre sua religião está pensando teologicamente, sua

reflexão é teológica e suas conclusões são de conteúdo teológico, desta forma se produz

teologia. Racionalizar, pensar, refletir e expressar a religião partindo de dentro da mesma é

sempre teologia. Cada religião tem a sua teologia e muito mais do que isso há formas diversas de pensar teologias ou seja muitas teologias e múltiplas opções de pensar uma mesma religião por exemplo.

Há a Teologia Cristã que engloba várias Teologias como Teologia Católica, Teologia

Luterana, Teologia Calvinista, Teologia Metodista, Teologia Adventista, Teologia

Evangélica, Teologia Pentecostal, Teologia Neo-pentecostal, etc.

Dentro da Teologia Católica podemos catalogar diferentes Teologias como a Teologia

Franciscana, Teologia Jesuíta, Teologia Dominicana, Teologia Mariana, etc. Pode-se

estudar Teologia Histórica buscando a Teologia Medieval, Teologia Moderna e Teologia

Contemporânea ou Teologia Pós-Moderna, buscando as tendencias de acordo com a época.

Assim como há Teologia da Libertação, Teologia da Esperança, Teologia da Prosperidade,

Teologia do Perdão, Teologia do Pecado que são formas de pensar algumas questões

especificas dentro de um campo social, cultural ou dogmático. Conforme se organiza e divide

a Teologia em áreas de conhecimento surega Teologia Sistemática, dividida em sistemas que explicam temas e assuntos como Angeologia, Cristologia, Mariologia, Escatologia,
Pneumatologia...

Podemos tratar de todas estas várias teologias e outras ainda apenas dentro do
cristianismo, que engloba em si mesmo uma grande variedade de teologias. E da mesma
forma encontraremos diferentes Teologias e variações teológicas dentro de todas as religiões; como Teologias Islâmicas, Teologias Judaicas, Teologias Hinduístas, Teologias Afros, Teologias Indígenas e muitas outras.

Teologia é para todos e não para poucos, todos pensam sobre Deus e o sagrado, inclusive

ateus...

Teologia de Umbanda

Em 1996 Rubens Saraceni idealizou e concretizou um “Curso de Teologia de Umbanda”,

partindo de vasto material que vinha psicografando com o pensamento, reflexão e conceitos

passados a ele por seus guias, mentores e outros mensageiros de Umbanda. A espiritualidade manifestava por ele a clara intenção de organizar e produzir material teológico com uma visão de cima para baixo, do mundo espiritual para o mundo material. Dentro desta proposta estava o objetivo inovador de ensinar a todos que tivessem o interesse de aprender um pouco mais sobre umbanda. Leigos, médiuns e sacerdotes umbandistas (Pais e Mães de Santo, Madrinhas e Padrinhos, Babás e Babalawôs, Caciques e Mestres), independente de serem ou não seus filhos espirituais, filhos de santo, discípulos ou umbandistas. Embora na Umbanda já houvesse um pensar teológico variado que se identifica como Umbanda Branca, Tradicional, Popular, Mista, Esotérica, Pura, Eclética e etc. Não houve uma produção teológica sistemática por boa parte destes seguimentos e o umbandista em geral carecia de compreensão teórica para suas práticas e fundamentos. Há sim uma literatura de umbanda que teve inicio em 1933 com a primeira publicação de Leal de Souza e que se multiplicou desde a década de 1950, ainda assim, em sua maioria, ou usavam (os autores umbandistas) uma linguagem muito popular, carecendo de fundamentos e base racional, ou abusavam de pseudo-erudição ocultista-esotérica para explicar confundindo e confundir explicando. Copiando o hermetismo europeu com seus dogmas e tabus explicados à razão de fundamentos Atlantes, Lemurianos, Sânscritos, Egípcios e outros. Tão distantes da Umbanda quanto a distancia temporal e geográfica de suas pseudo-origens e mitos fundantes de religiões primordiais e verdades absolutas.

Existem muitas Faculdades de Teologia, assim como há Faculdades de Filosofia,
Sociologia, Antropologia, História, Matemática... E assim como há faculdades para estas
disciplinas também há cursos livres, sem a pretensão acadêmica de graduação, mas com o
único objetivo de ensinar a quem queira aprender independente de sua formação. São muito
comuns os cursos de teologia ministrados em Igrejas e Templos Católicos, Luteranos,
Evangélicos, Pentecostis e Neo-pentecostais. Estes cursos se destinam a religiosos que querem simplesmente aprender mais e conhecer os fundamentos de sua religião.

Da mesma forma é com a Umbanda, se Rubens Saraceni idealizou o primeiro curso de
“Teologia de Umbanda” hoje surgiram muitos outros cursos de Umbanda, que levam nomes
variados como Curso de Doutrina Umbandista, Curso de Iniciação Umbandista, Curso Básico
Umbandista, Curso de Introdução á Umbanda ou simplesmente Curso de Umbanda.
Multiplicam-se os Cursos dentro e fora dos terreiros com o único objetivo de organizar o
conhecimento e passar informação adiante. É fato que a obra de Rubens Saraceni colaborou e muito como inspiração para o surgimento de novos cursos e também de uma nova literatura
umbandista, que vem ganhando o coração dos adeptos.

A Teologia de Umbanda

Por Rubens Saraceni

Escrever sobre Teologia de Umbanda não é tarefa fácil porque antes precisamos definir o que é

Teologia e o que é Doutrina de Umbanda.

• Teologia: tratado de Deus; doutrina que trata das coisas divinas; ciência que tem por objeto o dogma e a moral.

• Doutrina: conjunto de princípios básicos em que se fundamenta um sistema religioso,

filosófico e político; opinião, em assuntos científicos; norma (do latim doctrina).

Pelas definições acima, teologia e doutrina acabam se entrecruzando e se misturando, tornando difícil separar os aspectos doutrinários dos teológicos, principalmente em uma religião nova como é a Umbanda que, para dificultar ainda mais esses campos distintos, está compartimentada em várias correntes doutrinárias.

Panteões formados pelas mesmas divindades mas com nomes diferentes confundem quem deseja aprofundar-se no seu estudo.

Autores umbandistas temos muitos! Mas as linhas doutrinárias os separam e em um século de Umbanda ainda não foi possível uma uniformização teogônica ou doutrinária. Então, imaginem a dificuldade em tentar algo no campo teológico.

Quando iniciei um curso nomeado por mim “Curso de Teologia de Umbanda”, isto no ano de 1996, foram tantas as reações contrárias que esse meu pioneirismo gerou até um certo autoisolamento, que me impus para preservar-me e ao meu trabalho no campo da mediunidade, da psicografia e do ensino doutrinário.

Ser pioneiro e iniciar algo até então não pensado por nenhum outro umbandista gerou para mim uma certeza inabalável:

• Na Umbanda, tirando a parte prática ou os trabalhos espirituais, tudo mais ainda está para ser uniformizado e normatizado.

• Batizados, casamentos, funerais, iniciações, etc., cada corrente doutrinária tem seus ritos e

ninguém abdica do seu modo e prática particular em benefício do geral ou coletivo.

Eu mesmo, orientado pelos mentores espirituais, desenvolvi ritos de batismo, de casamento, de funeral e de iniciação fundamentais e possíveis de serem ensinados em aulas coletivas e de serem realizados com grande aceitação por quem a eles se submetesse, já que são muito bem fundamentados.

Mas, não para surpresa minha, já que não esperava que fossem aceitos, foram recusados

por muitos e admitidos só por uma minoria.

E mais uma vez os umbandistas desdenharam ritos fundamentais em pé de igualdade com os das outras religiões e continuaram casando-se em outras religiões e batizando seus filhos fora da Umbanda.

Só uma minoria é fiel aos seus ritos! Com isso, perde a religião e perdem os umbandistas.

Lembro-me que, quando comecei o meu curso de Teologia, um grupo que pratica uma Umbanda diferenciada (segundo eles) criticou-me violentamente e tudo fez para desacreditar-me e aos meus livros, mostrando-me como um ignorante e a eles como doutores nisto, naquilo e naquilo outro.

Os leitores, que não desinformados, ainda que a maioria não seja doutores, não deixariam de

notar a falta de fundamentos ou de fundamentação em tais críticas.

Pressa e oportunismo não são bons companheiros de quem deseja semear algo duradouro no tempo e na mente das pessoas, principalmente entre os umbandistas, tão refratários a mudanças.

Eu, com muitos livros teológicos e doutrinários já escritos há muito tempo, não me animei em

publicá-los antes de ter iniciado o meu curso em 1996, e só anos após ministrá-lo a centenas de pessoas e ser aprovado por elas ousei colocar ao público livros de Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada.

Mas antes, tomei a precaução de testar minha teoria de que havia criado um novo campo de

estudo para os umbandistas já que, sem a aprovação deles, de nada adiantaria lançá-lo pois cairia no vazio e no esquecimento, tal como já está acontecendo com os livros dos meus mais afoitos críticos, detratores e vilipendiadores.

Quem tenta se apropriar das idéias e das criações alheias e das criações alheias corre o risco de ser tachado com a pecha de oportunista e deve tentar destruir a todo custo quem teve a ideia primeiro e criou algo de bom. Caso contrário, este alguém sempre os acusará e mostrará a todos que oportunismo e esperteza em religião têm vida curta porque não prosperam no tempo, além de não contarem com a aprovação da espiritualidade e dos sagrados orixás, que não delegaram a ninguém o grau de reformador da Umbanda, pois ela ainda não ultrapassou a sua fase de implantação no plano material.

Os meus livros também se inserem nessa fase e espero que este meu comentário sirva de

estímulo a outros umbandistas (não apressados e não oportunistas) e que venham a contribuir para que seja criada uma verdadeira “literatura teológica umbandista”, tão fundamental quanto indispensável à doutrina de Umbanda.

Eu sei que isso demorará muito tempo para acontecer, mas sou obstinado e continuarei a

contribuir com o calçamento do caminho que conduzirá as gerações futuras à concentração dessa nossa necessidade.

Texto de Rubens Saraceni extraído do livro “Tratado Geral de Umbanda

- As chaves interpretativas teológicas” – Editora Madras.

A Formação Teológica do Sacerdote de Umbanda Sagrada

Por Rubens Saraceni

Todo sacerdote precisa receber uma preparação muito boa para que possa exercer com
sabedoria todas as múltiplas funções que este cargo religioso exige.

É certo que toda as religiões, em seus inícios, não tenham toda uma teologia á disposição
daqueles que aderem a elas e assumem posições de destaque, comando ou liderança sacerdotal.

Com a religião Umbandista não seria diferente, pois além de nova, ainda está na sua fase de
implantação. fase esta que ainda é experimental mas que permitirá que uma linha de pensamento se delineie naturalmente e torne-se predominantemente em sua doutrina religiosa.

Mas esse experimentalismo não desobriga o sacerdote umbandista de uma boa formação, com a qual poderá exercer suas funções e discutir sua religião com sabedoria e com conhecimentos
fundamentais acerca do seu universo religioso.

Nós sabemos que a Umbanda é uma religião espírita na qual a voz de comendo e a última palavra é dada pelos mentores espirituais e pelos guias-chefes dos médiuns. Fato este que tem sido de grande valia para a manutenção dos seus templos e para que as sessões ocorram de forma ordenada.

Mas, e por isto mesmo, é imperioso que todo sacerdote Umbandista desenvolva uma consciência voltada para aprendizado permanente. Fato este que beneficiará a religião como um todo, pois permitirá um aprimoramento ritualístico e uma renovação dos conceitos subtraídos de fontes religiosas não Umbandistas, mas incorporadas para suprir as lacunas conceituais, filosóficas e teológicas ainda existentes. Com algumas até gritantes porque o descaso com a formação teológica dos seus sacerdotes tem vulnerabilizado até práticas comezinhas, tais como: batismo, ma trimônio e funerais, durante os quais uma boa parte dos Umbandistas ainda recorrem a sacerdotes de outras religiões.

Nós sabemos que toda religião, em seu início, ainda é difusa e padece de ritos unânimes entre seus adeptos. Fato este que faz com que em certos casos ou situações seus seguidores recorram aos sacerdotes de suas antigas religiões ou com alguma outra a qual tenha identificação e tenha parentes ou amigos dentro dela.
Por isso é imperioso que envidemos todos os esforços necessários para, num curto tempo,
suprirmos as lacunas ainda existentes dentro da nossa religião.
Conceitos filosóficos, teológicos e doutrinários mais profundos, só surgirão com o amadurecimento da própria religião. Mas isto não significa que devemos ficar de braços cruzados e a espera de que alguém venha com tudo pronto porque isto não acontecerá.
Sim. Só quando todos os Umbandistas desenvolverem uma consciência religiosa verdadeiramente de Umbanda e totalmente calcada em conceitos próprios é que um pensamento filosófico, teológico e doutrinário muito bem delineado surgirá e se imporá em todas as correntes mediúnicas que formam essa maravilhosa religião espírita fundamentada na existência de um Deus único e na sua manifestação através de suas divindades (os Sagrados Orixás ou Tronos de Deus).
Devemos incorporar conceitos cujos valores sejam universais e estejam presentes na vida e no dia a dia dos Umbandistas. Assim como, devemos refutar conceitos parcialistas ou dogmáticos que tolham o aperfeiçoamento de nossas práticas e sobrecarreguem a vida e o dia a dia dos Umbandistas, afastando-os dos templos ou impedindo-os de manifestarem livremente suas religiosidades e suas preferências conceituais.

Saibam que os conceitos universais sempre foram incorporados pelas religiões nascentes, que recorrem a ele até que elas mesmas desenvolvam seus conceitos religiosos universalizadores de suas doutrinas, ritos e práticas.
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